No Que Os Buddhistas Acreditam

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No Que Os Buddhistas Acreditam

por Ven. Dr. K. Sri Dhammananda

Traduzido por Ricardo Sasaki
com a permissão do autor
para distribuição gratuita
© 2011 Edições Nalanda
Centro de Estudos Buddhistas Nalanda

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Índice

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Índice

Parte Um: Vida e Mensagem do Buddha

Capítulo 1 – Sua Mensagem

Capítulo 2 – Sua Mensagem

Capítulo 3 – Após o Buddha

Parte Dois: Buddhismo: Essência e Abordagens Comparativas

Capítulo 4 – A Verdade Atemporal do Buddha

Capítulo 5 – Doutrinas Básicas

Capítulo 6 – O Buddhismo diante de outras abordagens

Parte Três: Levando uma Vida Buddhista

Capítulo 7 – Fundação Moral para a Humanidade

Capítulo 8 – Moralidade e Prática Buddhista

Capítulo 9 – Dhamma e Nós Mesmos como Refúgio

Parte Quatro : A Vida Humana na Sociedade

Capítulo 10 – Oração, Meditação e Práticas Religiosas

Capítulo 11 – Vida e Cultura

Capítulo 12 – Casamento, Controle de Natalidade e Morte

Parte Cinco : Uma Religião para o Verdadeiro Progresso Humano

Capítulo 13 – Natureza, Valor e Escolha das Crenças Religiosas

Capítulo 14 – Promotor da Verdadeira Cultura Humana

Capítulo 15 – Guerra e Paz

Parte Seis : Este Mundo e Outros Mundos

Capítulo 16 – Reinos da Existência

Capítulo 17 – Adivinhações e Sonhos

Prefácio da Edição Brasileira

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“Quando visitei a Malásia em 1999, tive a oportunidade de conhecer e conviver alguns dias com o venerável K. Sri Dhammananda em seu templo, o Buddhist Maha Vihara de Kuala Lumpur. O belo templo no estilo do Sri Lanka, seu país natal, é sustentado pela comunidade cingalesa e pela grande comunidade chinesa e, na época, era palco da reunião anual de jovens buddhistas. O trabalho com as crianças e jovens foi uma de suas bem sucedidas iniciativas, e como era bom ver jovens buddhistas de 8 a 20 anos se divertindo juntos (karaokes, teatro, brincadeiras) ao mesmo tempo em que estudando o Dhamma através de palestras, discussões e atividades criativas. Venerável K. Sri Dhammananda não incentivava nada particularmente Theravada ou Mahayana; seu era um buddhismo universal, que tocava jovens e velhos, chineses, malaios e cingaleses. Ele levantava três dedos para cima e dizia que representavam os três ‘P’s: pariyatti (o aprendizado do Dhamma), patipatti (sua prática) e pativedha (penetrá-lo e realizar seu objetivo). ‘Se pudermos todos fazer essas três coisas, então não precisaremos ser conhecidos como Theravada, Mahayana ou Vajrayana. Todos esses ‘yanas’ são feitos pelo homem. O Dharma da não linguagem, no final das contas, é entendido por todos os seres, não importando as escolas e tradições’.

K. Sri Dhammananda foi um dos mais importantes monges buddhistas atuando no extremo do sudeste asiático. É difícil descrever o impacto e significado do Ven. Dhammananda na vida buddhista da Malásia e Cingapura. Respeitado igualmente pelas comunidades Theravada, Mahayana e civil, o “Chefe”, como era conhecido, efetivamente dominou o cenário buddhista das últimas décadas. Suas obras educacionais, sociais, comunitárias, literárias, fizeram de K. Sri Dhammananda um ícone do Buddhismo da Malásia, país que escolheu para viver.

Nascido no Sri Lanka em 18 de março de 1919, aos 12 foi ordenado como noviço, recebendo o nome de Dhammananda (“Bênção do Dhamma”). Diplomou-se no Vidyalankara Pirivena College de Colombo, aos 26 anos, em pali, sânskrito, filosofia buddhista e cânon pali, e mestrado em filosofia buddhista na Benares Hindu University.

K. Sri Dhammananda chegou no Buddhist Vihara em Brickfields, Kuala Lumpur (capital da Malásia), em 1952, e 10 anos depois fundou a Buddhist Missionary Society (BMS). Escreveu cerca de 70 livros, os quais foram traduzidos em mais de 17 línguas. Temos o grande deleite de ver agora sua mais famoso livro também na língua portuguesa. Em 1965, o Ven. K. Sri Dhammananda foi indicado como Chefe Supremo da Sangha da Malásia e Cingapura.

Enquanto o encontro dos jovens se dava (o que durava uma semana no período das férias escolares), o “Chefe” já se encontrava doente. Num dos dias de minha estadia, ele foi levado ao hospital. Passei cerca de uma hora em seu quarto de hospital, juntamente com outros monges e discípulos laicos, entre conversas sobre o Dhamma, risadas e veladas preocupações por sua saúde. Por que era conhecido como “o Chefe”? Todas as escolas buddhistas o respeitavam e o consideravam sob sua influência e proteção. Seu porte avantajado, sua voz poderosa e sorriso sempre presente irradiavam uma serena autoridade que em breve se espalhou por todo o Buddhismo do sudeste asiático, particularmente da Malásia e Cingapura.

Ven. K. Sri Dhammananda morreu em 31 de agosto de 2006. Naquele mesmo dia, decidi oferecer a tradução de um de seus livros mais famosos: No Que Os Buddhistas Acreditam, como tributo a este incansável trabalhador do Dhamma que deve servir de exemplo a todos nós. Exatamente uma semana depois o site estava online e era inaugurado com a primeira entrada. No decorrer desses anos os leitores de língua portuguesa puderam regularmente ler os capítulos do livro colocados pouco a pouco online até finalmente hoje o completarmos. Que por essa tradução e oferta muitos seres se beneficiem!

Ricardo Sasaki
diretor-fundador da
Comunidade Buddhista Nalanda
9 de novembro de 2011

Prefácio da 5a. Edição

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A primeira edição desse livro veio à luz em 1964, como resultado de perguntas colocadas por devotos do Venerável Autor durante uma prolongada série de palestras do Dhamma realizadas por toda a Malásia. Ele sentiu que um livro dessa natureza poderia servir como um livro de referência para buddhistas e não-buddhistas, apresentando de uma forma simplificada as crenças e conceitos do Buddhismo, bem como as atitudes buddhistas em relação a outras crenças.

É irônico, mas verdadeiro, que há pessoas que professam essa religião e que até se colocam como líderes buddhistas, mas ainda carecem dos princípios básicos do Buddhismo. Muito deles são bem versados em certos ritos e rituais, mas não compreendem a essência do Ensinamento do Mestre. Ignorando os nobres Ensinamentos, eles introduziram muitas crenças sem base e tradições infundadas, tornando uma religião racional e gentil num objeto de zombaria. Como resultado, muitas pessoas se preocupam mais com os aspectos devocionais e ritualistas do Buddhismo enquanto prestam escassa atenção ao desenvolvimento espiritual verdadeiro que leva à sabedoria e ao entendimento.

Essa é uma triste situação causada por alguns religiosos egoístas e mal orientados. Dirigidos pela ignorância e incentivados por fins mercenários, algumas pessoas difamaram o Buddhismo como religião, dando a impressão de que ela encoraja crenças supersticiosas e dependência em amuletos e presságios. Mesmo alguns monges se rebaixaram ao status de vendedores de amuletos.

É irônico que muitas pessoas nem mesmo sabem o nome da religião a que pertencem. Alguns dizem: “Eu acho que sou buddhista”. Isso mostra a extensão do que negligenciaram na maneira de vida buddhista. Tal ignorância dos ensinamentos sublimes encorajou missionários inescrupulosos de outras religiões a ridicularizarem o Buddhismo com falsas acusações e interpretações errôneas. Um resultado disso é que, sendo ignorantes a respeito de seus próprios Ensinamentos e incapazes de refutar as falsas alegações, os buddhistas sucumbem facilmente nas armadilhas da conversão.

Um dos objetivos para a criação de No que os Buddhistas Acreditam é contrapor tal ignorância. Sua intenção principal é se dirigir àqueles que têm um desejo genuíno de conhecer algo sobre os ensinamentos básicos, bem como aspectos os mais difíceis da religião, explicadas de uma maneira que possam ser entendidos num contexto moderno e sem um conhecimento prévio dos temas. A popularidade desse livro foi além de nossas expectativas. Ele foi revisado em 1973 e novamente em 1982. A procura por esse livro continua. Traduções para o chinês, coreano e indonésio podem ser encontradas.

Esse ano de 1987 foi o vigésimo quinto aniversário da formação da Buddhist Missionary Society, e foi decidido que No que os Buddhistas Acreditam deveria ser revisado e melhorado como uma ‘Edição Especial de Comemoração’ a fim de celebrar o Jubileu de Prata de nossa sociedade. O Venerável Autor, assim, com mais de 40 anos de experiência como missionário, passou muito tempo em pesquisas extensas, compilando novos capítulos para dar origem à reimpressão de 1987 de No que os Buddhistas Acreditam como um livro para todos aqueles que buscam saber o que é o Buddhismo.

Mantendo o objetivo original desse livro, deve ser enfatizado que o Venerável autor não tem qualquer intenção de denegrir ou rebaixar as crenças e práticas de outros religiosos e de outras escolas buddhistas de pensamento. Ele repetidamente enfatizou as injunções do Buddha no Kalama Sutta dizendo a seus seguidores para conservarem uma mente aberta e racional na aceitação de qualquer ensinamento. O Buddha, em sua época, nunca ridicularizou as práticas e crenças de outros religiosos então predominantes, mas expôs a verdade. Também não é o objetivo desse livro procurar converter, porque tal espírito é alheio ao espírito do Buddhismo. Seu objetivo deve ser reiterado – informar e educar os buddhistas a respeito dos objetivos básicos de sua religião e demonstrar seus sublimes ideais, fazendo com que todo buddhista fique orgulhoso de ser chamado de buddhista. No que os Buddhistas Acreditam almeja iluminar os outros quanto aos puros Ensinamentos de maneira que a partir de um entendimento maior e mais amplo eles serão bons e gentis o suficiente para deixarem de castigar essa Nobre Religião que vem servindo e guiando milhões de pessoas para o Caminho Correto.

O Ensinamento do Buddha é a maior herança que o homem recebeu do passado. A mensagem do Buddha ensinada há mais de 2500 anos, uma mensagem de não-violência e paz, de amor e compaixão, de tolerância e compreensão, de verdade e sabedoria, de respeito e consideração pela vida, de liberdade em relação ao egoísmo, ódio e violência, permanece válida até hoje e permanecerá como a Verdade. Essa é uma mensagem eterna.

Estamos num mundo dilacerado pela discórdia. O Buddha ensinou que devemos desenvolver ‘Bodhi’, o coração da sabedoria, um coração de amor, um coração de compreensão, a fim de superar os vícios que prevalecem infectando o homem desde o começo dos tempos. ‘Superar o ódio pelo não-ódio, superar o ódio pelo amor’. Estamos praticando o conselho dado por Ele? Somos responsáveis por nosso destino. Temos que limpar nosso coração, examinar nossa própria natureza e nos determinar a praticar os Ensinamentos não somente na letra, mas o mais importante, no espírito. Espera-se que essa publicação de No que os Buddhistas Acreditam possa ajudar muitos de nossos amigos buddhistas que seguem o verdadeiro caminho em direção à Iluminação.

Como Presidente da Buddhist Missionary Society, foi uma honra e um prazer para mim estar associado tão de perto com o Venerável Dr. K. Sri Dhammananda, o autor, na produção desse livro.

Desejo expressar nosso sincero agradecimento e apreço ao Sr. Victor Wee e ao Sr. Vijaya Samarawickrama pela ajuda ao autor na edição deste livro e por muitas sugestões úteis que ajudaram a levar este livro à sua forma atual. Também gostaria de agradecer à Sra. Chong Hong Choo que gastou incontáveis horas cuidando de inumeráveis detalhes na produção deste livro, desde o início até sua finalização. Agradecimentos também são oportunos ao Sr. H.M.A. de Silva, Srta. Lily See, Lee Lai Fong, Quah Pin Pin, Leong Poh Chwee, Tan Kuee Fong e Low Mei Ying pela digitação e revisão, pois sem tal assistência o presente livro não seria possível.

Teh Thean Choo A.M.N.
Presidente da Buddhist Missionary Society

Prefácio da 4a. Edição

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Quando o Ven. Dr. K. Sri Dhammananda visitou este país pela primeira vez cinquenta anos atrás, em 2 de janeiro de 1952, a Malásia acabava de sair da devastação da Segunda Guerra Mundial e se encontrava envolta na emergência comunista que havia começado alguns anos antes. As condições econômicas e sociais estavam longe de satisfatórias e a prática do Buddhismo era praticamente não existente, embora um grande número de chineses professasse ser buddhista. As comunidades thailandesa e birmanesa ao norte, e a cingalesa em Taiping, Kuala Lumpur e Melaka, praticavam sua religião quase da mesma forma como era feito em seus países de origem, mas não encorajavam as pessoas locais e se juntar em suas atividades.

Havia, porém, um pequeno número de chineses educados no sistema ocidental que estavam conscientes de que aquilo que passava como Buddhismo em sua comunidade era mais uma grande mistura de Taoísmo degradado, religião popular e Confucionismo elementar. Havia a necessidade e um desejo neles por descobrir o que o Buddha realmente ensinou. No passado sua necessidade foi satisfeita por um pequeno número de monges Theravada educados na Inglaterra e que vinham à Malásia. Os nomes que imediatamente me vem à mente são o Ven. K. Gunaratana, Ven. Narada, Ven. Mahaveera, Ven. Ananda Mangala, todos do Sri Lanka, e dois ingleses, Ven. Anoma Mahinda e Ven. Sumangala. Os buddhistas que só sabiam chinês tinham que se basear em monges chineses bem conhecidos, como o Ven. Chuk Mor, Ven. Kim Beng e outros.

Em 1952, o Ven. K. Sri Dhammananda, então com apenas 34 anos, foi convidado para se tornar o incumbente chefe do Templo Buddhista em Brickfields, Kuala Lumpur. Ele imediatamente reconheceu o enorme potencial que existia na propagação do Dharma entre os chineses do país. Iniciou, assim, uma carreira de ensinamento e escrita que agora dura meio século e transformou a imagem do Buddhismo de modo tão efetivo que hoje é praticado por um número crescente de pessoas na Malásia. Isto se deve porque ele dedicadamente firmou seu pé na declaração de que o Buddhismo somente poderia ser praticado corretamente se pudéssemos retornar aos ensinamentos originais do Buddha. Ao mesmo tempo, ele apoiou não apenas o Buddhismo Theravada, mas também o Mahayana e o Vajrayana, pois dizia que todas essas escolas eram uma parte do Ekayana, o Único Caminho.

Enquanto cuidava das necessidades espirituais e culturais dos membros da Sasana Abhiwurdhi Wardhana Society, o Ven. Dhammananda também fundou a Buddhist Missionary Society da Malásia, a qual continuou a publicar e distribuir seus numerosos escritos assim como outros livros por todo o mundo. Um dos livros do venerável, No que os Buddhistas Acreditam, foi publicado inicialmente em 1962 como uma coleção de respostas ‘pés no chão’ a perguntas concernentes a como os ensinamentos do Buddha poderiam ajudar as pessoas a enfrentar os problemas contemporâneos. O livro ganhou imediatamente uma larga audiência, o que comprovou amplamente que ele preenchia uma necessidade há muito sentida entre os buddhistas. Ele foi revisado em 1973 e, mais tarde, em 1982, após o quê começou a ser traduzido em outras línguas. Hoje ele está disponível em espanhol, holandês, cingalês, nepali, persa, birmanês, coreano, chinês, vietnamita e indonésio.

Em uma ocasião, uma delegação cristã visitou o Ven. Dhammananda a fim de ter uma conversa. Um membro da delegação viu o livro em sua mesa e perguntou: “Venerável, no que os buddhistas acreditam?” Ele respondeu: “Os buddhistas em nada acreditam!” Intrigado, o homem perguntou: “Então, por que o senhor escreveu este livro?” O Ven. Dhammananda sorriu e disse: “Bem, leia o livro e veja por si mesmo se há qualquer coisa no Buddhismo que seja somente para acreditar”. O homem, então, perguntou: “Muito bem, então, o que os buddhistas fazem?” O Ven. Dhammananda respondeu: “Bem, primeiro eles estudam, então eles praticam e, finalmente, eles vivenciam” (pariyatti, patipatti, pativedha).

Sim, No que os Buddhistas Acreditam não irá lhes dizer no que acreditar. Ele é um livro que abre nossos olhos para vermos por nós mesmos a realidade da vida. O livro, escrito num inglês simples, e de uma maneira um tanto não convencional, provou ser efetivo em esclarecer as dúvidas de muitos leitores, incapzes de compreender as obras textuais e acadêmicas de eruditos. Desde sua publicação, muitos leitores capazes de entender o inglês puderam conhecer o que o Buddhismo é afinal de contas por meio da leitura deste livro.

Esta quarta edição de No que os Buddhistas Acreditam é uma versão expandida publicada para comemorar o aniversário de 50 anos de serviço Dhammaduta na Malásia do Ven. K. Sri Dhammananda. As duas sociedades concordaram de que a melhor forma de expressar nossas gratidão e apreciação pelo Ven. K. Sri Dhammananda, por seu impressionamente trabalho, é apoiá-lo em trazer a mensagem do Buddha às massas, isto é, publicando esta edição nossa esperança é de que todos os leitores, buddhistas e não-buddhistas, poderão ter uma vida mais rica após sua leitura.

Desejamos expressar nosso sincero agradecimento e apreciação ao Sr. Vijaya Samarawickrama, Dr. Victor Wee Eng Lee, Sr. Goh Seng Chai, Srta. Foo Pau Lin e Srta. Than Lai Har pela edição, digitação, revisão e por suas úteis sugestões que levaram o livro a esta forma atual. Queremos também agradecer ao Sr. Hor Tuck Loon pelo desenho da capa e layout do livro. Sem sua assistência e cooperação a publicação do livro não teria sido possível.

Ir. Ang Choo Hong, KSD, PPT
Presidente da Buddhist Missionary Society Malaysia

Sarah W. Surendre
Presidente Sasana Abhiwurdhi Wardhana Society

15 de março de 2002

Nota do Autor

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Com tantos livros disponíveis sobre o Buddhismo, alguém pode perguntar se há necessidade para mais um. Embora livros sobre o Buddhismo sejam encontrados no mercado, muitos deles são escritos para quem já adquiriu um entendimento básico do Buddha Dhamma. Alguns são escritos num estilo arcaico, baseados numa tradução rígida dos textos originais. Tal estilo não é chamativo para os leitores modernos que ficam com a impressão de que o Buddhismo é um tema seco. Há livros de eruditos que apresentam os ensinamentos de uma forma altamente acadêmica e intrincada. Exceto para uns poucos leitores bem informados, esses livros podem criar mais confusão do que esclarecimento, e podem levar o leitor comum a concluir que o Buddhismo é sofisticado demais para suas necessidades. Alguns livros realçam as diferenças entre as escolas buddhistas, com o resultado de que o leitor iniciante fica envolvido na chamada ‘rivalidade sectária’ sem perceber que há mais similaridades do que diferenças entre as escolas. Há também livros escritos por não buddhistas, os quais deliberadamente ou por causa de sua ignorância, distorcem e deturpam os verdadeiros ensinamentos do Buddha.

Este livro foi escrito com um objetivo específico na mente: introduzir o ensinamento original de forma clara e sem o recurso do exagero, implicações culturais ou depreciação de alguma escola do Buddhismo em particular, de modo que o leitor possa entender o Buddha Dhamma em seu contexto moderno. Há um crescente interesse pelo Buddhismo no mundo porque muitas pessoas bem informadas têm ficado cada vez mais cansadas com o dogmatismo religioso e as superstições por um lado, e do apego e o egoísmo surgido do materialismo de outro. O Buddhismo pode ensinar a humanidade a andar no Caminho do Meio da moderação e ter um melhor entendimento de como alcançar uma vida mais rica de paz e felicidade.

K. Sri Dhammananda
18 de março de 1987

Gotama, o Buddha – 1

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O Fundador do Buddhismo

Gotama Buddha, o fundador do Buddhismo, viveu no norte da Índia no 6º. século a.C. Seu nome pessoal era Siddhattha, e Seu nome de família era Gotama. Ele foi chamado de ‘Buddha’ após ter atingido a Iluminação e realizado a Verdade última. ‘Buddha’ significa ‘Desperto’ ou ‘Iluminado’. Ele geralmente Se chamava de ‘Tathagata’, enquanto que Seus seguidores o chamavam de ‘Bhagava’, O Bem Aventurado. Outros se referiam a Ele como Gotama ou Sakyamuni.

Ele nasceu como um príncipe que parecia ter tudo. Teve uma criação luxuosa e Sua família era de uma descendência pura de ambos os lados. Ele era o herdeiro do trono, extremamente belo, inspirador de confiança, majestoso e dotado de uma bela compleição e uma presença refinada. Aos dezesseis anos casou-Se com Sua prima Yasodhara, majestosa, serena e plena de dignidade e graça.

Apesar de tudo isso, o príncipe Siddhattha se sentia preso no luxo como um pássaro em uma gaiola de ouro. Durante as visitas fora do palácio Ele viu aquilo que foi conhecido como ‘Os Quatro Sinais’, isto é, um homem velho, um homem doente, um homem morto e um santo recluso. Quando viu os sinais, um após o outro, a compreensão veio a Ele de que “A vida está sujeita ao envelhecimento e à morte”. Ele perguntou: “Qual reino da vida no qual não há nem velhice nem morte?” O sinal do recluso, que estava calmo por ter abandonado a ânsia pela vida material, deu a Ele a indicação de que o primeiro passo em Sua procura pela Verdade deveria ser a Renúncia. Isto significava compreender que as posses materiais não poderiam trazer a felicidade última que as pessoas ansiavam.

Determinado a encontrar o caminho para fora desses sofrimentos universais, Ele decidiu abandonar o lar e encontrar a cura não somente para Si mesmo, mas para toda a humanidade. Uma noite, aos vinte e nove anos, com um silencioso adeus Ele Se despediu de Sua esposa e filho que dormiam. Selou Seu grande cavalo branco e Se dirigiu para a floresta.

Sua renúncia é sem precedentes na história. Ele abandonou, no auge de sua juventude, os prazeres em troca das dificuldades; seguiu da segurança da vida material para as austeridades; de uma posição de riqueza e poder para aquela de um asceta errante que se abrigava em cavernas e florestas, somente com Seu manto esfarrapado como única proteção contra o sol escaldante, a chuva e os ventos do inverno. Ele renunciou à Sua posição, riqueza, promessa de prestígio e poder, e uma vida repleta de amor e esperança em troca da busca pela Verdade, a qual ninguém havia encontrado, embora muitos na Índia a tivessem procurado por milhares de anos.

Gotama, o Buddha – 2

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Por seis longos anos, Ele se dedicou a encontrar a Verdade. Qual a verdade que buscava? Era entender verdadeiramente a natureza da existência e encontrar a felicidade derradeira e imutável. Estudou sob os mais proeminentes mestres da época e aprendeu tudo que tais professores religiosos podiam Lhe ensinar. Quando descobriu que não podiam ensinar aquilo que estava buscando, Ele decidiu encontrar a Verdade por Seus próprios esforços. Um bando de ascetas se juntou a Ele e juntos praticaram severas austeridades na crença de que se o corpo fosse torturado então a alma seria liberta do sofrimento. Siddhattha era um homem de energia e força de vontade e superou os outros ascetas em cada austeridade que praticavam. Quando jejuava, Ele comia tão pouco que quando olhava a pele de Seu estômago, Ele conseguia tocar Sua coluna vertebral. Ele se pressionou a realizar feitos suprahumanos de autotortura de maneira que certamente teria morrido. Mas compreendeu a futilidade da automortificação e ao invés disso decidiu praticar a moderação.

Na noite de lua cheia do mês de Vesakha, Ele se sentou sob a Árvore Bodhi em Gaya, imerso em profunda meditação. Foi então que Sua mente explodiu a bolha do universo material e percebeu a verdadeira natureza de toda a vida e de todas as coisas. Com a idade de 35 anos, Ele se transformou de um buscador sincero pela verdade em um Buddha, o Iluminado.

Por quase meio século depois da Iluminação, o Buddha andou pelas estradas poeirentas da Índia ensinando o Dhamma, de forma que aqueles que ouvissem e praticassem viessem a ser enobrecidos e livres. Ele fundou uma ordem de monges e monjas, desafiou o sistema de castas, elevou o status das mulheres, encorajou a liberdade religiosa e a livre investigação, abriu os portões da libertação para todos, em qualquer condição de vida, alta ou baixa, santo ou pecador, e enobreceu as vidas de criminosos como Angulimala e de cortesãs como Ambapali. Ele libertou a humanidade da escravidão religiosa, do dogma religioso e da fé cega.

Ele atingiu o ápice em sabedoria e inteligência. Cada problema foi analisado em suas partes constituintes que então foram rejuntadas na ordem lógica com o significado tornado claro. Ninguém podia derrotá-Lo no diálogo. Um professor inigualável mesmo nos dias de hoje. Ele ainda é o mais proeminente analista da mente e dos fenômenos. Pela primeira vez na história, Ele deu aos seres humanos o poder para pensar por si mesmos, elevou o valor da humanidade e mostrou que os seres humanos podem alcançar o mais alto conhecimento e a suprema Iluminação por seus próprios esforços.

Apesar de sua incomparável sabedoria e linhagem real, Ele nunca se afastou dos simples aldeões. Distinções superficiais de classe e casta significavam pouco para Ele. Ninguém era tão pequeno ou baixo para que Ele não pudesse ajudar. Frequentemente quando uma pessoa sem casta, pobre e rejeitada vinha até Ele, seu respeito próprio era restaurado e sua vida era transformada de ignóbil para a de um nobre ser.

Gotama, o Buddha – 3

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O Buddha era pleno de compaixão (karuna) e sabedoria (pañña), conhecedor do como e do quê ensinar aos indivíduos de acordo com seu nível de entendimento. Ele era conhecido por ter andado longas distâncias para ajudar uma única pessoa a fim de mostrar a ele ou ela o Caminho correto.

Ele era carinhoso e dedicado aos Seus discípulos, sempre perguntando a respeito de seu bem estar e progresso. Quando residia no mosteiro, Ele visitava diariamente os lugares onde os doentes ficavam. Sua compaixão pelos doentes pode ser notada por meio de Seu conselho: “Quem cuida do doente, cuida de mim”. O Buddha manteve ordem e disciplina com base no respeito mútuo. O rei Pasenadi não podia entender como o Buddha mantinha tal ordem e disciplina na comunidade dos monges, enquanto ele, um rei com o poder de punir, não conseguia fazê-lo em sua corte. O método do Buddha era o de fazer com que as pessoas agissem a partir de um entendimento interior ao invés de fazê-las se comportar pela imposição de leis e ameaçá-las com punições.

Muitos poderes milagrosos foram atribuídos a Ele, mas Ele não considerava qualquer tipo de poder sobrenatural algo de importância. Para Ele, o maior milagre era explicar a Verdade e tornar uma pessoa cruel em alguém bondoso por meio da compreensão. Um professor com profunda compaixão, Ele sentia o sofrimento humano e estava determinado a libertar as pessoas de seus grilhões por meio de um sistema racional de pensamento e um modo de vida.

O Buddha não afirmava ter ‘criado’ condições mundanas, os fenômenos universais ou a Lei Universal que chamamos de ‘Dhamma’. Embora descrito como lokavidu ou ‘conhecedor dos mundos’, Ele não era considerado o exclusivo guardião da Lei Universal. Ele livremente reconhecia que o Dhamma, juntamente com o funcionamento do cosmos, é atemporal; não tem criador e é independente no sentido absoluto. Cada coisa condicionada que existe no cosmos é sujeita à operação do Dhamma. O que o Buddha fez (como todos os outros Buddhas antes Dele) foi redescobrir a Verdade infalível e torná-la conhecida pela humanidade. Descobrir a Verdade, Ele também descobriu os meios pelos quais alguém poderia de forma derradeira se libertar da sujeição ao ciclo infindável do condicionamento, com os malefícios que o seguem.

Após quarenta e cinco anos de ministério, o Buddha faleceu (atingiu o parinibbana) com a idade de oitenta anos num local chamado Kusinara, deixando para trás numerosos seguidores, monges e monjas, e um vasto tesouro de Ensinamentos do Dhamma. O impacto de Seu grande amor e dedicação ainda hoje é sentido.

No Três Maiores Homens da História, H.G.Wells declara: “No Buddha se vê claramente um homem simples, devoto, solitário, lutando pela luz, uma personalidade humana vívida, não um mito. Ele também deixou uma mensagem universal à humanidade. Muitas de nossas melhores idéias atualmente se encontram em estreita harmonia com sua mensagem. Toda miséria e descontentamento da vida são devidos, ele ensinou, ao egoísmo. Antes de um homem se tornar sereno ele deve cessar de viver voltado para seus sentidos ou para ele mesmo. Então ele se funde em um ser maior. O Buddhismo, com uma linguagem diferente, convidou o homem a se esquecer de si mesmo quinhentos anos antes de Cristo. De certa forma, Ele estava mais perto de nós e de nossas necessidades. Ele foi mais lúcido quanto a nossa importância individual no serviço do que Cristo e menos ambíguo quanto a questão da imortalidade pessoal”.

Sua Renúncia

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A renúncia do Príncipe Siddhattha foi o passo mais corajoso que um homem já deu

Era noite. Siddhattha não conseguia encontrar a paz. Ele vagou pelas salas do palácio e finalmente foi até o rei. Ele o reverenciou e disse a ele:

‘Pai, conceda-me o pedido que fiz. Permita-me deixar o palácio para seguir o caminho da libertação, pois todas as coisas terrestres mudam e são de curta duração. Assim, devemos nos separar, pai’.

‘Filho, desista dessa idéia. Você ainda é jovem demais para um chamado religioso. É mais apropriado para mim abraçar a religião. O tempo chegou para eu deixar o palácio. Eu abdico, filho!’.

‘Prometa-me quatro coisas, ó pai, e eu não deixarei sua casa e não me dirigirei até a floresta’.

‘Que coisas?’, perguntou o rei.

‘Prometa-me que minha vida não terminará em morte, que a doença não afetará minha saúde, que a idade não seguirá minha juventude, que o infortúnio não destruirá minha prosperidade’.

‘Não posso prometer tais coisas, filho, pois são inevitáveis’.

‘Então não se segure. Ó pai, minha mente está determinada. Todas as coisas terrenas são transitórias’.

Dessa forma o príncipe resolveu realizar a Grande Renúncia naquela própria noite.

Com a idade de 29 anos, Siddhattha era cheio de vida, um jovem no primor da vida. Assim, a tentação era grande de não abandonar tudo aquilo que havia conhecido e amado. Ele sabia que o esforço de buscar a verdade devia ser formidável. Durante Seus momentos finais no palácio, Ele visitou Seu quarto e olhou para Sua adormecida esposa e Seu filho recém-nascido. O grande impulso de permanecer e abandonar Seu plano deve ter causado uma intensa agonia. Ao contrário dos valores materialistas da era atual, naqueles dias na Índia, era considerado algo nobre uma pessoa desistir do lar e daqueles a quem amava e se tornar um asceta levando uma vida santa. Era considerado um sacrifício espiritualmente louvado. Considerando tudo isso, portanto, seria considerado que Siddhattha estava certo em corajosa e rapidamente levar adiante Seu plano.

Passados dois mil e quinhentos anos após Sua renúncia, alguns criticam-No por essa ação. Dizem que foi cruel fugir do palácio sem nem mesmo dizer a Sua esposa. Eles condenam Siddhattha por Sua maneira de deixar o lar e o Reino. Alguns descrevem isso como um ‘abandono insensível de esposa e família’. Ainda assim, o que teria acontecido se Ele não tivesse partido tão quietamente, mas se aproximado de seus queridos para um adeus formal? Eles iriam, com certeza, implorar a Ele para mudar de idéia. A cena teria sido histérica, e possivelmente o pequeno reino de Seu pai, Rajá Suddhodana, teria entrado em convulsão. Sua intenção de procurar a Verdade teria que ser abortada, pois Seu pai e esposa não iriam concordar com Seus planos de renúncia, embora tivesse discutido com Seu pai e esposa sobre Suas intenções de renúncia. Por causa de Sua partida naquele dia, hoje, quinhentos milhões de seres humanos O seguem. Sua esposa e filho O teriam seguido. Sua esposa, entretanto, não O acusou de abandono quando percebeu o propósito de Sua renúncia. Ao contrário, ela abandonou sua vida de luxo a fim de levar uma vida simples como um sinal de respeito. Mais cedo, quando havia conversado com Sua esposa sobre Sua renúncia, ela soube que não haveria maneira dele desistir de Sua decisão. Ela então pediu a Ele que tivessem um filho antes disso. Foi por isso que Ele decidiu renunciar no mesmo dia em que o filho nasceu.

Ele renunciou ao mundo não para Si mesmo ou para Sua própria conveniência, mas por causa de toda a humanidade sofredora. Para Ele, toda a humanidade era uma família. A renúncia do Príncipe Siddhattha numa idade tão jovem foi o passo mais corajoso que um homem já deu.

O desapego é um dos fatores mais importantes para o atingimento da Iluminação. O atingimento da Iluminação se dá através do não apego. A maior parte das dificuldades da vida é causada pelo apego. Ficamos com raiva; nos preocupamos; nos tornamos gananciosos e reclamamos amargamente. Todas essas causas de infelicidade, tensão, teimosia e tristeza são devido ao apego. Quando investigamos qualquer dificuldade ou preocupação que temos, a causa principal é sempre o apego. Tivesse o Príncipe Siddhattha desenvolvido Seu apego com relação à Sua esposa, filho, reino e os prazeres do mundo, Ele nunca teria sido capaz de descobrir o remédio para a humanidade sofredora. Entretanto, Ele teria que sacrificar tudo, inclusive os prazeres do mundo, de modo a ter uma mente concentrada livre de quaisquer distrações, a fim de encontrar a Verdade que pudesse curar o sofrimento da humanidade. Considerem isso, se o príncipe não tivesse renunciado, a humanidade ainda estaria aprisionada no medo, ignorância e tristeza, sem um entendimento real da condição humana.

Aos olhos desse jovem Príncipe, todo o mundo queimava com paixão, ódio, cobiça e muitas outras impurezas que incendiam o fogo de nossas paixões. Ele viu cada ser vivo neste mundo, incluindo Sua esposa e pai, sofrendo todos os tipos de doenças físicas e mentais. Tão determinado Ele estava a buscar uma solução para a erradicação do sofrimento para a humanidade sofredora, que Ele estava preparado para tudo sacrificar.

Eis como um poeta viu a renúncia do Buddha:

Não foi por ódio das doces crianças,
Não foi por ódio de Sua adorável esposa,
Excitação de corações – não que Ele os amou menos,
Mas mais o Estado de Buddha, que Ele renunciou a tudo.
(Dwight Goddard)