Renascimento

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O desejo não satisfeito pela existência e por prazeres sensuais é a causa do renascimento.

Os buddhistas consideram a doutrina do renascimento não como uma mera teoria, mas como um fato verificável. A aceitação da verdade a respeito do renascimento forma um princípio fundamental do Buddhismo. Entretanto, a crença no renascimento não está confinada aos buddhistas; é também encontrada em outros países, em outras religiões e mesmo entre pensadores livres. Pitágoras podia se lembrar de seu nascimento anterior. Platão podia se lembrar de várias de suas vidas anteriores. De acordo com Platão, os seres humanos podem renascer somente até dez vezes. Platão também acreditava na possibilidade de renascimento no reino animal. Entre os povos antigos no Egito e na China, uma crença comum era de que somente as personalidades bem conhecidas, como imperadores e reis, tinham renascimentos. Uma autoridade cristã, Orígenes, que viveu entre 185 e 254 d.C., acreditava no renascimento. De acordo com ele, não há sofrimento eterno no inferno. Giordano Bruno, que viveu no século XVI, acreditava que a alma de todo homem e animal transmigrava de um ser para outro. Em 1788, o filósofo Kant criticou o ensinamento sobre a punição eterna. Kant também acreditava na possibilidade de renascimento em outros corpos celestiais. Schopenhauer (1788-1860), outro grande filósofo, disse que onde a vontade de viver existisse haveria a necessidade de continuidade da vida. A vontade de viver se manifesta sucessivamente sempre em novas formas. O Buddha explicou esta ‘vontade de existir’ como o desejo sedento pela existência. E, claro, os antigos sábios da Índia ensinavam sobre a transmigração de uma alma desde tempos remotos.

É possível, mas não tão fácil para nós, verificarmos de fato nossas vidas passadas. A natureza da mente é tal que ela não permite que a maioria das pessoas relembre suas vidas prévias. Nossas mentes são oprimidas pelos cinco obstáculos: desejo sensual, má-vontade, preguiça, inquietude e dúvida. Devido a esses obstáculos, nossa visão está presa a terra e não conseguimos visualizar os renascimentos. Como um espelho que não reflete uma imagem quando está coberto de sujeira, assim a mente não permite que a maioria das pessoas relembre as vidas anteriores. Não podemos ver as estrelas durante o dia, não porque não estejam no céu, mas porque são ofuscadas pela luz do sol. Similarmente, não podemos nos lembrar de nossas vidas passadas porque nossa mente atual está sempre sobrecarregada com muitos pensamentos sobre os eventos diários e pelas circunstâncias mundanas do presente.

Uma consideração sobre a curta duração de nossa vida na terra nos ajudará a refletir sobre o renascimento. Se considerarmos a vida e seu significado e objetivo últimos, e toda a variedade de experiência possível para um ser humano, devemos concluir que uma única vida não é tempo suficiente para uma pessoa realizar tudo aquilo que ele ou ela pode fazer ou deseja fazer. A escala de experiência e desejo é infinita. Há uma vasta gama de poderes latentes nos seres humanos que podemos perceber e mesmo desenvolver se a oportunidade se apresentar a nós. Isso é especialmente verdadeiro hoje se uma investigação especial for feita. Descobrimo-nos com altas aspirações, mas sem tempo para atingi-las. Enquanto isso, a grande tropa das paixões e desejos, motivos e ambições egoístas, fazem a guerra dentro de nós e com os outros. Essas forças perseguem uma às outras até a hora de nossa morte. Todas essas forças precisam ser julgadas, conquistadas, suprimidas e usadas. Uma vida simplesmente não é suficiente para tudo isso. Dizer que devemos ter apenas uma vida aqui com tais possibilidades diante de nós e a impossibilidade para desenvolvê-las é tornar o universo e a vida uma enorme e cruel piada.

5 comentários em “Renascimento

    dhanapala respondido:
    12 setembro, 2010 às 9:15 am

    para mim, o que sempre me surpreende, é que quando se trata do assunto “renascimento”, os autores que propõem uma defesa ou explicação sempre acabam utilizando de argumentos meramente emocionais. Defender o renascimento com base no argumento de que uma só vida seria insuficiente para experienciarmos todos os tipos de desejos e situações, ou para desenvolvermos ‘nosso potencial’ é um argumento meramente emocional e que pode ser usada para então justificar ou ‘explicar’ qualquer coisa. Nessa mesma linha, a afirmação do autor de que “A aceitação da verdade a respeito do renascimento forma um princípio fundamental do Buddhismo” é bastante curiosa, uma vez que aceitar algo de que não se tem experiência direta (e mesmo que se tenha, isso ainda está sujeito a vários outros parâmetros) vai contra os princípios delineados no Kalama Sutta, os quais o autor defende em outros capítulos deste próprio livro.

    Jorge disse:
    13 setembro, 2010 às 7:42 am

    Tenho visto que as tentativas de argumentação em favor do renascimento de um corpo a outro são sempre insatisfatórias. E quanto mais apreendo o Buddhadhamma, mais as vejo como desnecessárias.

    Índice « No Que Os Buddhistas Acreditam disse:
    28 setembro, 2010 às 10:29 am

    […] Renascimento […]

    Ludwig disse:
    15 junho, 2014 às 8:13 pm

    O texto me deixou confuso, já que no livro Espiritualismo moderno, o Ricardo Sasaki critica as teorias de reencarnação das principais religiões esotéricas. Alguém sabe se foi ele mesmo que traduziu este texto?

    [Vídeo] O renascimento no budismo « Olhar Budista disse:
    5 julho, 2016 às 11:55 am

    […] No Que Os Buddhistas Acreditam disse: Cap. Renascimento […]

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