Capítulo 10

Fé, Confiança e Devoção

Postado em Atualizado em

Entendimento Correto mostra o caminho para a confiança; a confiança pavimenta o caminho para a sabedoria. A sabedoria pavimenta o caminho para a salvação.

A fé no sentido teísta não tem fundamento no Buddhismo por causa de sua ênfase no entendimento. A fé teísta é um sedativo para a mente emocional e demanda a crença em coisas que não podem ser explicadas. O conhecimento destrói a fé e a fé destrói a si mesma quando uma crença misteriosa é examinada sob o holofote da razão. A confiança não pode ser obtida pela fé uma vez que esta coloca pouca ou nenhuma ênfase na razão.

Referindo-se à natureza ininteligível e ‘cega’ da fé, Voltaire disse: “A fé é acreditar em algo que sua razão lhe diz não poder ser verdade; mas se sua razão aprovar isso, então não se trata de fé cega”.

A confiança, entretanto, não é o mesmo que fé. Pois a confiança não é uma mera aceitação do que não pode ser conhecido. A confiança é uma expectativa assegurada, não de um desconhecido além, mas daquilo que pode ser testado como experienciado e compreendido pessoalmente. A confiança é como o entendimento que um estudante obtém de seu professor, o qual lhe explica na sala de aula a lei da gravidade da inversão do quadrado estabelecida por Newton. Ele não deveria adotar uma crença inquestionável em seu professor e em seu manual. Ele estuda o fato, examina os argumentos científicos, e avalia a confiabilidade da informação. Se tiver dúvidas, ele deveria reservar seu julgamento até o momento em que for capaz de investigar a precisão da informação por si mesmo. Para um buddhista, a confiança é um produto de razão, conhecimento e experiência. Quando desenvolvida, a confiança não pode nunca ser uma fé cega. A confiança se torna um poder da mente em entender a natureza e o significado da vida.

Em seu livro, ‘What The Buddha Taught’, Walpola Rahula diz:

A questão da crença surge quando não há visão – visão em todos os sentidos da palavra. No momento em que você vê, a questão da crença desaparece. Se eu lhe disser que tenho uma gema escondida na palma fechada de minha mão, a questão da crença surge porque você não a vê por si mesmo. Mas se abro meu punho e mostro a gema a você, então você a vê por si mesmo, e a questão da crença não surge. Uma frase dos textos antigos buddhistas contém: ‘Compreendendo, como alguém vê uma gema (ou uma cereja) na palma da mão’.

O Significado da Oração

Postado em Atualizado em

A natureza é imparcial; ela não pode ser bajulada por orações. Ela não provê nenhum favor especial por meio de pedidos.

De acordo com o Buddhismo, os humanos são mestres de si mesmos em potencial. Somente por causa de sua profunda ignorância eles fracassam em perceber seu completo potencial. Uma vez que o Buddha mostrou esse poder escondido, as pessoas devem cultivar suas mentes e tentar desenvolvê-las pela compreensão de suas habilidades inatas.

Uma história irá ilustrar esse ponto. Uma águia certa vez colocou um ovo num ninho de uma galinha. A galinha o chocou junto de seus próprios. Os bebês então seguiram a galinha à medida que ela os ensinava a focar a atenção sobre o chão à procura de alimento. A pequena águia, pensando que era uma galinha, fazia o mesmo. Um dia, entretanto, ela viu uma águia voando lá no alto do céu, e decidiu fazer o mesmo. As outras galinhas riram dela, mas ela não se importou. Todos os dias perseverou até que um dia se tornou forte o bastante e alçou vôo, tornando-se um senhor dos céus, enquanto as outras galinhas continuaram sua vida no chão. Devemos pensar como uma águia.

O Buddhismo dá total responsabilidade e dignidade aos seres humanos. Ele faz deles seu próprio mestre. De acordo com o Buddhismo, nenhum ser está sentado lá no alto para julgar sobre suas obras e destino. Isso significa que nossa vida, nossa sociedade, nosso mundo, são o que você e eu queremos fazer deles, e não o que deseja algum outro ser desconhecido.

Lembrem-se de que a natureza é imparcial; ela não pode ser bajulada por orações. A natureza não provê nenhum favor especial por meio de pedidos. Assim, no Buddhismo, a oração é uma meditação que tem a autotransformação como seu objetivo. A oração na meditação atua como uma ajuda no recondicionamento da própria natureza. É a transformação da própria natureza interior feita pela purificação das três faculdades – pensamento, palavra e ato. Através da meditação podemos compreender que “nos tornamos o que pensamos”, de acordo com as descobertas da psicologia. Quando oramos, experienciamos algum alívio em nossas mentes; é o efeito psicológico daquilo que criamos através de nossa fé e devoção. Após recitar certos versos também experienciamos o mesmo resultado. Nomes ou símbolos religiosos são importantes na medida em que ajudam a desenvolver a devoção e a confiança, mas nunca devem ser considerados como fins em si mesmos.

O Significado da Oração – II

Postado em Atualizado em

O próprio Buddha declarou expressamente que nem a recitação de escrituras sagradas, nem a tortura de si mesmo, nem dormir sobre o chão, nem a repetição de orações, penitências, hinos, encantamentos, mantras, incantações e invocações podem trazer a felicidade real do Nibbāna, mas somente a purificação da mente através do esforço próprio pode fazê-lo.

Com relação ao uso de orações para se atingir o objetivo final, o Buddha certa vez usou a analogia de um homem que desejava atravessar um rio. Se ele se sentasse e orasse, implorando que a outra margem do rio viesse até ele e o carregasse para a outra margem, então sua oração não seria respondida. Se realmente desejasse atravessar o rio, ele deveria fazer algum esforço; precisaria encontrar alguns troncos e construir uma balsa, ou procurar por uma ponte ou construir um barco ou talvez nadar. De alguma forma ele precisará trabalhar para conseguir atravessar o rio. Da mesma forma, se quiser atravessar o rio do Saṁsāra, somente orações não serão suficientes. Ele deverá trabalhar duramente para viver uma vida religiosa, controlar suas paixões, acalmar sua mente e se livrar de todas as impurezas e aflições de sua mente. Somente assim poderá alcançar o objetivo final. Somente orações nunca irão levá-lo ao objetivo final.

Se a oração for necessária, ela deveria servir para fortalecer e focar a mente e não implorar por ganhos. A seguinte oração de um poeta nos ensina como rezar. Os buddhistas poderão considerá-la como uma meditação para cultivar a mente:

“Que eu não ore para ser protegido dos perigos,
mas para ser corajoso ao encará-los.
Que eu não peça pelo aquietamento de minha dor,
Mas para que meu coração a conquiste.
Que eu não deseje com um medo ansioso por ser salvo,
Mas pela paciência por obter minha liberdade”.

Meditação

Postado em Atualizado em

A meditação é a abordagem psicológica para a cultura mental, treinamento e purificação.

Em lugar da oração, os buddhistas praticam a meditação para a cultura mental e para o desenvolvimento espiritual. Ninguém pode atingir o Nibbāna ou a salvação sem desenvolver a mente através da meditação. Qualquer quantidade de somente ações meritórias não levará uma pessoa a atingir o objetivo final sem a purificação mental correspondente. Naturalmente, a mente não treinada é bastante ardilosa e convence as pessoas a cometerem o mal e a se tornarem escravas dos sentidos. Imaginação e emoções sempre enganam o homem se sua mente não está treinada apropriadamente. Aquele que sabe como praticar a meditação será capaz de controlar sua própria mente quando ela for enganada pelos sentidos.

A maior parte das dificuldades com as quais nos defrontamos atualmente é devida a uma mente não treinada e não educada. Já foi constatado que a meditação é o remédio para males físicos e mentais do homem. Autoridades médicas e grandes psicólogos do mundo dizem sempre que a frustração mental, preocupações, misérias, ansiedades, tensão e medo são as causas de muitas doenças, úlceras estomacais, gastrite, problemas nervosos e doença mental. E mesmo doenças latentes serão agravadas sob tais condições mentais.

Quando o ‘eu’ consciente se agita demais, se preocupa demais, ou sofre por tempo demais ou muito intensamente, então problemas se desenvolvem no corpo. Úlceras gástricas, tuberculose, doenças coronarianas e uma quantidade de desordens funcionais são os produtos do desequilíbrio mental e emocional. No caso de crianças, males dentários e defeitos na visão são freqüentemente relacionados a desordens emocionais.

Muitas dessas doenças e desordens podem ser evitadas se as pessoas pudessem gastar uns poucos minutos por dia a fim de acalmarem seus sentidos pela prática da meditação. Muitas pessoas não acreditam nisso ou são por demais preguiçosas para praticarem a meditação por falta de compreensão. Algumas pessoas dizem que a meditação é somente uma perda de tempo. Devemos nos lembrar que todo mestre espiritual nesse mundo atingiu o ponto mais alto de sua vida através da prática da meditação. Eles são honrados atualmente por milhões de pessoas porque prestaram um tremendo serviço à humanidade, devido a seu conhecimento e paciência supremos obtidos através da prática da meditação.

Meditação II

Postado em Atualizado em

A meditação não deveria ser uma tarefa na qual nos forçamos ‘com os dentes trancados e os pulsos cerrados’; deveria ser algo que nos convida, pois nos enche de alegria e inspiração. Enquanto tivermos que nos forçar, ainda não estaremos prontos para a meditação. Ao invés de meditar estaremos violando nossa verdadeira natureza. Ao invés de relaxar e deixar passar, estaremos nos segurando em nosso ego, em nossa força de vontade. Dessa forma, a meditação se torna um jogo de ambição, de conquista pessoal e engrandecimento. Meditação é como o amor: uma experiência espontânea – não algo que possa ser forçado ou adquirido através de esforço excessivo.

Portanto a meditação buddhista não tem outro propósito senão trazer a mente de volta ao presente, para o estado de total consciência desperta, por meio de uma limpeza de todos os obstáculos criados pelo hábito ou pela tradição.

O Buddha obteve Sua Iluminação pelo desenvolvimento de Sua mente. Ele não buscou um poder divino para ajudá-Lo. Ele conquistou Sua sabedoria através do esforço próprio pela prática da meditação. Para se ter um corpo e uma mente saudáveis e atingir a paz na vida, é preciso aprender como praticar a meditação.

Natureza da Vida Moderna – I

Postado em Atualizado em

Vivemos hoje num mundo em que as pessoas têm que trabalhar muito, tanto física como mentalmente. Sem trabalho duro, não há lugar para as pessoas na sociedade moderna. Muito freqüentemente, a competição acirrada ocorre por todos os cantos. Cada qual tenta vencer o outro em todas as esferas da vida e o homem não tem descanso de forma alguma. A mente é o núcleo da vida. Quando não há paz verdadeira e descanso mental, toda a vida entra em colapso. As pessoas naturalmente tentam superar suas misérias através do agradar os sentidos: bebem, apostam, cantam e dançam – todo o tempo com a ilusão de que estão desfrutando da verdadeira felicidade da vida. O estímulo sensorial não é a forma verdadeira de relaxar. Quanto mais tentamos agradar os sentidos, mais nos tornamos escravos deles. Não haverá fim para nossa ânsia por satisfação. O modo verdadeiro de relaxar é acalmar os sentidos por meio do controle da mente. Se pudermos controlar a mente, seremos então capazes de controlar tudo. Quando a mente é totalmente controlada e purificada, é livre das perturbações mentais. Quando a mente é livre das perturbações mentais, podemos ver muitas coisas que outros não podem ver com seus olhos nus. Em última análise, seremos capazes de atingir nossa salvação e encontrar paz e felicidade.

Para praticar a meditação, precisamos ter uma forte determinação, esforço e paciência. Resultados imediatos não podem ser esperados. Devemos nos lembrar que leva muitos anos para uma pessoa estar qualificada como médico, advogado, matemático, filósofo, historiador ou cientista. Da mesma forma, para ser um bom meditante levará algum tempo a fim de controlar a mente esquiva e acalmar os sentidos. Praticar a meditação é como nadar num rio contra a correnteza. Assim, não se deve perder a paciência por não ser capaz de obter resultados rápidos. Ao mesmo tempo, o meditante deve também cultivar sua moralidade. Um lugar adequado para meditar é outro aspecto importante. O meditante deve ter um objeto para sua meditação, pois sem um objeto a mente evasiva não é fácil de ser capturada. O objeto não deve criar desejo, raiva, ilusão e emoção na mente do meditante.

Natureza da Vida Moderna – II

Postado em Atualizado em

Quando começamos a meditar, levamos a mente desde o velho modo imaginativo de pensar – o pensamentos habitual – para um novo modo desimpedido ou não-usual de pensar. Enquanto meditamos, inspirando vigilantemente, absorvemos a energia do cosmos. Enquanto expiramos vigilantemente com mettā – bondade amorosa – purificamos a atmosfera. O intelecto é necessário para a superação da confusão emocional e espiritual, enquanto a intuição é necessária para superar a limitação intelectual e a abstração conceitual.

A maior parte de nosso tempo gastamos com nosso corpo: alimentamos, vestimos, limpamos, lavamos, embelezamos e relaxamos o corpo; mas quanto tempo gastamos com nossa mente para o mesmo propósito?

Algumas pessoas tomam a Imagem do Buddha como um objeto e se concentram nela. Alguns se concentram na inspiração e na expiração. Seja qual for o método, se qualquer um tenta praticar a meditação, ele certamente encontrará o relaxamento. A meditação o ajudará muito a ter uma saúde física e mental, bem como a controlar a mente quando necessário.

O homem pode prestar um serviço maior à sociedade simplesmente se abstendo do mal. A mente cultivada que é desenvolvida por meio da meditação realiza um serviço muito útil aos outros. A meditação não é simplesmente uma perda do valioso tempo do homem. A mente avançada de um meditante pode resolver tantos problemas humanos e é muito útil para iluminar os outros. A meditação é muito útil para ajudar uma pessoa a viver pacificamente, apesar das várias perturbações tão prevalecentes neste mundo moderno. Não se pode esperar de nós que nos retiremos para uma mata ou floresta para viver em torres de marfim – ‘longe da louca multidão’. Praticando a meditação correta podemos ter um refúgio para um esquecimento temporário. A meditação tem o propósito de treinar uma pessoa a fim de enfrentar, compreender e conquistar esse próprio mundo no qual vivemos. A meditação nos ensina a nos ajustarmos a fim de suportar os numerosos obstáculos da vida no mundo moderno.

Algumas pessoas praticam a meditação a fim de satisfazer seus desejos materiais; elas querem aumentar seus ganhos materiais. Querem usar a meditação para conseguir melhores empregos. Querem ganhar mais dinheiro ou operar seus negócios mais eficientemente. Talvez falhem em entender que o objetivo da meditação não é aumentar, mas diminuir os desejos. Motivos materialistas dificilmente são adequados para a meditação apropriada, para o objetivo que se encontra além dos afazeres do mundo. É preciso meditar para tentar atingir algo que mesmo o dinheiro não pode comprar ou trazer.