Capítulo 16

A Origem do Mundo

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“Não há razão para se supor que o mundo tenha tido um início. A idéia de que as coisas devam ter um começo é realmente algo devido à pobreza de nossos pensamentos” (Bertrand Russel).

Há três escolas de pensamento com relação à origem do mundo. A primeira escola de pensamento afirma que esse mundo veio a existir pela natureza e que a natureza não é uma força inteligente. Entretanto, a natureza funciona de um modo próprio e sempre mutável.

A segunda escola de pensamento diz que o mundo foi criado por um Deus todo poderoso, o qual é responsável por tudo. A terceira escola de pensamento diz que o início do mundo e da vida é inconcebível pois não tem nem início nem fim. O Buddhismo está de acordo com essa terceira escola de pensamento. Bertrand Russel concorda com essa escola de pensamento dizendo: ‘Não há razão para se supor que o mundo tenha tido um início. A idéia de que as coisas devam ter um começo é realmente algo devido à pobreza de nossos pensamentos.

A ciência moderna diz que há alguns milhões de anos a recente terra esfriada era sem vida e que a vida se originou no oceano. O Buddhismo nunca proclamou que o mundo, o sol, a lua, as estrelas, o vento, a água, os dias e as noites foram criados por um deus poderoso ou por um Buddha. Os buddhistas acreditam que o mundo não foi criado de uma só vez, mas que o mundo é criado milhões de vezes a cada segundo e isso continuará a acontecer por si mesmo e terminará por si mesmo. De acordo com o Buddhismo, os sistemas mundiais sempre aparecem e desaparecem no universo.

H.G. Wells, em A Short History of the World, diz que: ‘É universalmente reconhecido que o universo em que vivemos, tem toda a aparência de ter existido por um enorme período de tempo e possivelmente por um tempo sem fim. Mas que o universo em que vivemos existiu somente desde uns seis ou sete milhões de anos pode ser julgado como uma idéia totalmente ultrapassada. Nenhuma vida parece ter surgido de repente sobre terra’.

Os esforços feitos por muitas religiões em explicar o início e o fim do universo são realmente mal-concebidos. A posição das religiões que propõem a visão de que o universo foi criado por deus em um ano fixo exato, se tornou difícil de se manter à luz do conhecimento moderno e científico.

Os cientistas, historiadores, astrônomos, biólogos, botânicos, antropólogos e grandes pensadores de hoje têm todos contribuído com um conhecimento vasto e novo sobre a origem do mundo. Essas últimas descobertas e conhecimentos não estão de modo algum em contradição com os Ensinamentos do Buddha. Bertrand Russel, novamente, diz que respeita o Buddha por não fazer falsas declarações como outros que se comprometeram com uma visão particular sobre a origem do mundo.

As explicações especulativas sobre a origem do universo apresentadas por várias religiões não são aceitáveis aos cientistas e intelectuais modernos. Mesmo os comentários das Escrituras Buddhistas, escritos por alguns escritores buddhistas, não podem ser desafiados pelo pensamento científico em relação a essa questão. O Buddha não perdeu Seu tempo com esse assunto. A razão para Seu silêncio foi a de que esse assunto não tem valor religioso para atingir a sabedoria espiritual. A explicação sobre a origem do universo não é um problema da religião. Tal teorização não é necessária para se viver um modo de vida correto e para dar uma direção à nossa vida futura. Entretanto, se alguém insiste em estudar esse tema, então deverá investigar as ciências, a astronomia, a geologia, a biologia e a antropologia. Essas ciências podem oferecer mais informações confiáveis e testadas sobre esse tema do que podem oferecer quaisquer religiões. O propósito de uma religião é cultivar a vida aqui nesse mundo e no próximo, até que a libertação seja atingida.

Aos olhos do Buddha, o mundo nada mais é que samsara – o ciclo de repetidos nascimentos e mortes. Para Ele, o começo e o fim do mundo estão no samsara. Uma vez que elementos e energias são relativos e interdependentes, não tem sentido especificar qualquer coisa como sendo o início. Seja qual for a especulação que fizermos sobre a origem do mundo, não haverá uma verdade absoluta nesse nosso conceito.

Infinito é o céu, infinito é o número de seres,

Infinitos são os mundos no vasto universo,

Infinito em sabedoria o Buddha ensina assim,

Infinitas são as virtudes Dele que assim ensina’. (Sri Ramachandra)

Um dia um homem chamado Malunkyaputta se aproximou do Mestre e pediu que Ele explicasse a origem do universo. Ele até o ameaçou de parar de ser Seu seguidor se a resposta do Buddha não fosse satisfatória. O Buddha calmamente respondeu que não tinha importância se Malunkyaputta o seguisse ou não, pois a Verdade não precisava da ajuda de ninguém. Então, o Buddha disse que não discutiria sobre a origem do universo. Para Ele, obter o conhecimento sobre tais temas era uma perda de tempo porque a tarefa de um homem era se libertar do presente, não do passado ou do futuro. Para ilustrar isso, o Iluminado relatou a parábola de um homem que fora atingido por uma flecha envenenada. Esse homem tolo se recusou a ter a flecha removida antes de saber tudo sobre a pessoa que atirou a flecha. Quando seus assistentes descobriram esses detalhes desnecessários, o homem já havia morrido. Similarmente, nossa tarefa imediata é atingir o Nibbāna, e não o se preocupar sobre nossos começos.

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Outros sistemas mundiais

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À luz das descobertas modernas e científicas, podemos apreciar as limitações do mundo humano e a hipótese de que outros sistemas de mundo possam existir em outras partes do universo.

Em certas ocasiões, o Buddha comentou sobre a natureza e composição do universo. De acordo com o Buddha, há algumas outras formas de vida existindo em outras partes do universo. O Buddha mencionou que há trinta e um planos de existência dentro do universo. Eles são:

4 Estados de infelicidade ou reinos subumanos (vida nos infernos, vida animal, mundo dos fantasmas e mundo dos demônios).

1 Mundo humano.

6 Devalokas ou reinos celestiais.

16 Rupalokas ou reinos das formas materiais sutis.

4 Arupalokas ou reinos sem-forma.

A existência desses outros sistemas mundiais ainda está para ser confirmada pela ciência moderna. Entretanto, os cientistas modernos estão agora trabalhando com a hipótese de que há uma possibilidade de outras formas de vida existindo em outros planetas. Como um resultado do rápido progresso científico de hoje, podemos em breve encontrar alguns seres vivos em outros planetas nas mais remotas partes da galáxia. Talvez descobriremos que estão sujeitos às mesmas leis que nós. Podem ser fisicamente muito diferentes, na aparência, elementos e composição química, e existir em dimensões diferentes. Podem ser muito superiores a nós ou muito inferiores.

Porque o planeta Terra deve ser o único planeta a conter formas de vida? A Terra é um grão de areia no imenso universo. Sir James Jeans, o famoso astrofísico, estima que todo o universo seja mais ou menos um milhão de vezes maior do que a área de espaço que é visível através de um telescópio. Em seu livro The Mysterious Universe ele declara que o número total de universos é provavelmente algo como o número total dos grãos de areia das costas de todos os mares do mundo. Em tal universo, o planeta Terra é somente um milionésimo de um grão de areia. Ele também nos informa que a luz do sol que leva um sétimo de segundo para alcançar a terra, levaria provavelmente 100.000 milhões de anos para atravessar todo o universo! Tal é a vastidão do cosmos. Quando consideramos a vastidão dos muitos universos que constituem o que popularmente é conhecido como ‘espaço exterior’, a hipótese de que outros sistemas mundiais possam existir é cientificamente aceitável.

À luz das descobertas científicas modernas, podemos apreciar as limitações do mundo humano. Hoje, a ciência demonstrou que nosso mundo humano existe dentro das limitações das freqüências vibratórias que podem ser recebidas por nossos órgãos dos sentidos. E a ciência também nos mostra que há outras freqüências vibratórias que estão acima ou abaixo de nosso alcance de recepção. Com a descoberta das ondas de raio, raios-X, ondas de TV e micro-ondas, podemos apreciar o visão extremamente limitada que nos é imposta por nossos órgãos sensoriais. Observamos o universo através de uma ‘fenda’ que é permitida por nossos órgãos dos sentidos, assim como uma criança observa através de uma fenda na porta. Essa consciência de nossa percepção limitada demonstra a possibilidade de que outros sistemas de mundo possam existir, os quais estão separados de nós ou que se interpenetram com o nosso.

Em relação à natureza do universo, o Buddha disse que o início e o fim do universo são inconcebíveis. Os buddhistas não acreditam que o mundo terminará repentinamente numa completa e total destruição. Não há isso de completa destruição de todo o universo de uma só vez. Quando uma certa parte do universo desaparece, outra parte permanece. Quando outra parte desaparece uma outra reaparece ou se desenvolve de matérias dispersas de um universo prévio. Isso é formado pelo acúmulo de moléculas, elementos básicos, gás e energias numerosas, uma combinação sustentada pelo impulso cósmico e gravidade. Então alguns outros novos sistemas de mundo aparecem e existem por algum tempo. Essa é a natureza das energias cósmicas. Esse é o motivo de o Buddha ter dito que o início e o fim do universo são inconcebíveis.

Foi somente em algumas ocasiões especiais que o Buddha comentou sobre a natureza e a composição do universo. Quando falou, precisou se dirigir ao entendimento e à capacidade do perguntador. O Buddha não estava interessado nesse tipo de especulação metafísica que não leva ao desenvolvimento espiritual mais elevado.

Os buddhistas não partilham da visão sustentada por algumas pessoas de que o mundo será destruído por um deus, quando houver mais não-crentes e mais corrupção entre os seres humanos. Com relação a essa crença as pessoas podem perguntar, ao invés de destruir com seu poder, porque esse deus não pode usar o mesmo poder para influenciar as pessoas a se tornarem crentes e limpar todas as práticas imorais da mente dos homens? Se o deus destrói ou não, é natural que um dia haverá um fim para tudo que surge. Entretanto, na linguagem do Buddha, o mundo não é nada mais do que combinação, existência, desaparecimento e recombinação de mente e matéria. (nama-rupa).

No final das contas, o Ensinamento do Buddha vai além das descobertas da ciência moderna por mais maravilhosas ou impressionantes que sejam. Na ciência, o conhecimento do universo se destina a capacitar o homem a controlá-lo para seu conforto material e sua segurança pessoal. Mas o Buddha ensina que, não importando a quantidade de conhecimento factual que se possa ter, isso fundamentalmente não livrará o homem da dor da existência. Ele deve se esforçar sozinho e diligentemente até chegar ao verdadeiro entendimento de sua própria natureza e da natureza mutável do cosmos. Para ser realmente livre um homem deve buscar domesticar sua mente a fim de destruir seu desejo sedento pelos prazeres sensoriais. Quando um homem realmente compreende que o universo que está tentando conquistar é impermanente, ele se verá como um Don Quixote lutando contra moinhos de vento. Com a Compreensão Correta de si mesmo ele gastará seu tempo e energia conquistando sua mente e destruindo sua ilusão do eu, sem desperdiçar seu esforço em assuntos sem importância e desnecessários.

O Conceito Buddhista de Céu e Inferno

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O sábio faz seu próprio céu enquanto que o homem tolo cria seu próprio inferno aqui e depois.

O conceito buddhista de céu e inferno é inteiramente diferente daquele de outras religiões. Os buddhistas não aceitam que tais lugares sejam eternos. Não é razoável condenar um homem ao inferno eterno devido as suas fraquezas humanas, mas é bastante razoável dar a ele todas as chances para se desenvolver. De um ponto de vista buddhista, aqueles que vão para o inferno podem ascender fazendo uso do mérito que adquiriram previamente. Não há trancas nos portões do inferno. Ele é um lugar temporário e não há razão para tais seres lá sofrerem para sempre.

O Ensinamento do Buddha nos mostra que há céus e infernos não somente abaixo desse mundo, mas nesse próprio mundo. Assim, a concepção buddhista de céu e inferno é muito razoável. Por exemplo, uma vez o Buddha disse: “Quando a pessoa ignorante comum faz uma declaração a respeito de haver um Inferno (patala) sob o oceano ele faz uma declaração que é falsa e sem base. A palavra ‘inferno’ é um termo para as sensações dolorosas”. A idéia de um lugar particular já pronto ou um lugar criado por deus como sendo céu e inferno não é aceitável como um conceito buddhista.

O fogo do inferno nesse mundo é mais quente do que o do inferno no mundo além. Não há fogo igual aos da raiva, paixão, cobiça e ignorância. De acordo com o Buddha, estamos queimando com onze formas de dores físicas e agonias mentais: paixão, ódio, ilusão, doença, decadência, morte, preocupação, lamento, dor (física e mental), melancolia e pesar. As pessoas podem incendiar o mundo inteiro com alguns desses fogos da discórdia mental. De um ponto de vista buddhista, a maneira mais fácil de definir inferno e céu é a de que onde houver mais sofrimento, nesse mundo ou em qualquer outro plano, tal lugar será um inferno para os que sofrem. E onde houver mais prazer ou felicidade, nesse mundo ou em qualquer outro plano de existência, tal lugar será um céu para aqueles que desfrutam sua vida mundana nesse lugar em particular. Entretanto, como o mundo humano é uma mistura tanto de dor como de felicidade, os seres humanos experienciam tanto a dor como a felicidade, e serão capazes de compreender a natureza real da vida. Mas em muitos outros planos de existência seus habitantes têm menos chance para essa compreensão. Em certos lugares há mais sofrimento do que prazer, enquanto que em outros há mais prazer do que sofrimento.

Buddhistas acreditam que após a morte o renascimento pode ocorrer em qualquer uma das muitas existências possíveis. Essa existência futura é condicionada pelo último momento de pensamento que uma pessoa vivencia no momento da morte. Esse último pensamento que determina a próxima existência resulta das ações passadas de um homem seja nessa vida quanto antes dela. Por isso, se o pensamento predominante reflete ações meritórias, ele então encontrará sua existência futura em um estado feliz. Mas tal estado é temporário e quando se exaure uma nova vida deve começar novamente, determinada por outra energia ‘kâmmica’ dominante. Esse processo repetitivo prossegue sem fim a menos que se chegue à ‘Compreensão Correta’ e se faça uma firme resolução por seguir o Caminho Nobre que produz a felicidade última do Nibbāna.

O céu é um lugar temporário onde aqueles que fizeram boas ações vivenciam mais prazeres sensoriais por um período mais longo. Inferno é um outro lugar temporário onde os que fizeram más ações vivenciam mais sofrimento físico e mental. Não é justificável acreditar que tais lugares sejam permanentes. Não há deus por trás das cenas do céu e do inferno. Cada pessoa tem a experiência de acordo com seu bom ou mau kamma. Os buddhistas nunca tentam apresentar o Buddhismo amedrontando as pessoas com o fogo do inferno ou seduzindo-as com o paraíso. Sua idéia principal é a construção do caráter e o treinamento mental. Os buddhistas podem praticar sua religião sem aspirar pelo céu ou temer o inferno. Sua obrigação é levar uma vida correta desenvolvendo qualidades humanas e a paz na mente.

Crença em deidades (Devas)

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Os buddhistas não negam a existência de vários deuses ou deidades.

Os devas são mais afortunados do que os seres humanos no que concerne os prazeres sensoriais. Eles também possuem certos poderes que os seres humanos usualmente carecem. Entretanto, os poderes dessas deidades são limitados porque elas também são seres transitórios. Eles existem em moradas felizes e desfrutam sua vida por um período mais longo do que os seres humanos. Quando o bom kamma, que acumularam durante os nascimentos prévios, se extingue, essas deidades morrem e renascem em algum outro lugar de acordo com seus bons e maus kammas. De acordo com o Buddha, os seres humanos têm mais oportunidades de adquirir méritos para um nascimento em melhores condições, enquanto que as deidades têm menos chances a esse respeito.

Os buddhistas não atribuem nenhuma importância específica a tais deuses. Não consideram tais deidades como de ajuda ao desenvolvimento moral ou para o atingimento da salvação do Nibbāna. Grandes ou pequenos, tanto os seres humanos como as deidades são perecíveis e sujeitas ao renascimento.

É uma crença comum entre no público buddhista de que tais deidades podem ser influenciadas – pela transferência de méritos a elas, sempre que ações meritórias sejam executadas – a fim de se conseguir seus favores. Essa crença é baseada no ordenamento do Buddha de que as deidades protejam aqueles seres humanos que têm um modo de vida religioso. Essa é a razão porque os buddhistas transferem os méritos a tais deidades ou se lembram delas sempre que realizam alguma ação meritória. Entretanto, fazer oferendas e adorar tais deidades não é encorajado, embora alguns costumes buddhistas se centrem em torno de tais atividades. Quando as pessoas estão em grandes dificuldades, elas naturalmente se voltam para tais deidades a fim de expressar suas aflições em um lugar de adoração. Assim fazendo, ganham algum alívio e consolo; em seus corações, sentem-se muito melhor. Entretanto, para um intelectual que tem uma poderosa força de vontade, boa educação e compreensão, não é necessário que se faça uso de tais crenças e ações. Definitivamente não há Ensinamento no Buddhismo com relação aos buddhistas atingirem o Nibbāna através da reza a alguma deidade. Os buddhistas acreditam que “pureza e a impureza dependem de si mesmos. Ninguém desde fora pode purificar um outro”. (Dhammapada 165)

O Estado de Buddha e o Nibbāna podem ser atingidos sem qualquer ajuda de uma fonte externa. Portanto, os buddhistas podem praticar sua religião com ou sem as deidades.

O Mundo dos Espíritos

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Há seres visíveis e invisíveis, ou espíritos, da mesma maneira como há luzes visíveis e invisíveis.

O Buddhismo não nega a existência de bons e maus espíritos. Há seres visíveis e invisíveis, ou espíritos, da mesma maneira como há luzes visíveis e invisíveis. Precisamos de instrumentos especiais a fim de ver a luz invisível, e precisamos de um sentido especial para ver os seres invisíveis. Não se pode negar a existência de tais espíritos somente porque se é incapaz de vê-los a olhos nus. Tais espíritos também estão sujeitos ao nascimento e morte. Eles não se manterão permanentemente na forma de espírito. Eles também existem no mesmo mundo em que vivemos.

Um buddhista genuíno é alguém que molda sua vida de acordo com a causação moral descoberta pelo Buddha. Ele não deveria se preocupar com louvar esses deuses e espíritos. Entretanto, esse tipo de louvor é de algum interesse e fascínio para a multidão e, naturalmente, levou alguns buddhistas ao contacto com essas atividades.

Com relação à proteção de espíritos maléficos, a bondade é um escudo contra o mal. A bondade é um muro que o mal não pode penetrar, a menos que uma pessoa boa abra a porta para a influência do mal. Mesmo que uma pessoa leve uma vida verdadeiramente virtuosa e santa, e tenha um bom escudo de moral e vida nobre, tal pessoa ainda pode baixar seu escudo de proteção devido à crença no poder do mal que poderia prejudicá-la.

O Buddha nunca aconselhou seus seguidores a louvarem tais espíritos ou apavorarem-se com eles. A atitude buddhista em relação a eles é transferir méritos e irradiar a amizade amorosa. Os buddhistas não os prejudicam. Por outro lado, se um homem é religioso, virtuoso e puro em sua mente, e se é também inteligente e possuidor de uma poderosa força de vontade e capacidade de compreensão, então tal pessoa pode ser considerada muito mais forte que tais espíritos. Os espíritos maléficos se manterão longe dele, os bons espíritos irão protegê-lo.

O significado da transferência de méritos aos que morreram

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Se você realmente deseja honrar e ajudar aos que morreram, faça então algumas ações meritórias em seu nome e transfira os méritos a eles.

De acordo com o Buddhismo, as boas ações ou ‘atos de mérito’ trazem felicidade ao doador tanto nesse mundo quanto no vindouro. Também se acredita que atos de mérito levam ao objetivo final da felicidade duradoura. Os atos meritórios pode ser realizados por meio do corpo, da fala ou da mente. Cada boa ação produz ‘mérito’, o qual se acumula ao ‘crédito’ do doador. O Buddhismo também ensina que o mérito adquirido pode ser transferido a outros; pode ser compartilhado indiretamente com outros. Em outras palavras, o mérito é ‘reversível’ e, assim, pode ser compartilhado com outras pessoas. As pessoas que recebem o mérito podem estar vivas ou terem morrido.

O método para a transferência de méritos é bastante simples. Primeiramente, algumas boas ações são feitas. O doador das boas ações deve meramente desejar que o mérito que adquiriu advenha para alguém em particular ou para ‘todos os seres’. Esse desejo pode ser puramente mental ou pode vir acompanhado por uma expressão em palavras.

O desejo pode ser feito com o beneficiário consciente disso. Quando o beneficiário está consciente do ato ou do desejo, então acontece um mútuo ‘alegrar-se’ no mérito. Aqui, o beneficiário se torna um participante da ação original, associando-se à ação feita. Se o beneficiário se identifica tanto com a ação como com o doador, ele pode, algumas vezes, até adquirir um maior mérito do que o doador original, seja devido à sua alegria ser maior ou porque sua apreciação do valor da ação é baseada no seu entendimento do Dhamma e, daí, mais meritória. Textos buddhistas contêm diversas estórias a esse respeito.

O ‘alegrar-se na transferência de méritos’ pode também ocorrer com ou sem o conhecimento do doador da ação meritória. Basta que o beneficiário sinta alegria em seu coração quando se torna consciente da boa ação. Se desejar, ele pode expressar sua alegria dizendo ‘sadhu’, que significa “bem realizado”. O que ele estará fazendo será criar um tipo de aplauso mental ou verbal. A fim de compartilhar a boa ação feita por uma outra pessoa, é importante que haja uma aprovação mútua da ação e uma alegria surgindo no coração do beneficiário.

Mesmo se assim desejar, o doador de uma boa ação não pode impedir o ‘alegrar-se no mérito’ de uma outra pessoa, pois não tem poder sobre o pensamento de outrem. De acordo com o Buddha, em todas as ações, é o pensamento que realmente importa. A transferência é primariamente um ato da mente.

Transferir méritos não significa que uma pessoa ficará privada do mérito que adquiriu originariamente por sua boa ação. Pelo contrário, o próprio ato de ‘transferência’ é uma boa ação em si e daí acentua o mérito já conquistado.

O melhor presente para os que morreram

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                O Buddha diz que o maior presente que alguém pode oferecer aos ancestrais falecidos é realizar ‘atos meritórios’ e transferir os méritos assim adquiridos. Ele também diz que aqueles que oferecem também recebem os frutos de suas ações. O Buddha encorajava aqueles que faziam boas ações – tais como oferecer esmolas a homens santos -, a transferir os méritos recebidos aos que faleceram. Esmolas deveriam ser dadas em nome do falecido lembrando-se dessa forma: “Quando ele estava vivo, ele me deu tal riqueza; ele fez isso para mim, ele era meu parente, meu companheiro”, etc. (Tirokudda SuttaKhuddakapatha). De nada adianta chorar, sentir-se triste, lamentar e lastimar; tais atitudes não têm conseqüências para os que morreram.

Transferir méritos para os que morreram é uma prática baseada na crença popular de que na morte de uma pessoa, seus ‘méritos’ e ‘deméritos’ são pesados um contra o outro e seu destino determinado; suas ações determinam se renascerá em uma esfera de felicidade ou em um reino de desgraça. A crença é a de que um morto poderá ter se dirigido ao mundo dos espíritos mortos. Os seres nessas formas mais baixas de existência não podem gerar novos méritos, e têm que viver com os méritos que adquiriram desse mundo.

Aqueles que não prejudicaram os outros e realizaram muitas ações benéficas durante seu tempo de vida, certamente terão a chance de renascer num lugar feliz. Tais pessoas não necessitam da ajuda dos parentes vivos. Entretanto, aqueles que não têm oportunidade de renascer numa morada feliz, sempre esperam para receber méritos de seus parentes vivos a fim de compensar suas deficiências e capacitá-los a nascer numa morada feliz.

Os que renascem na forma de espírito desafortunado podem ser libertos de sua condição sofredora através da transferência de méritos dados a eles por amigos e parentes que fazem algumas ações meritórias.

Essa injunção do Buddha de transferir méritos aos que morreram tem uma contraparte no costume hindu praticado por eras. Várias cerimônias são realizadas a fim de que os espíritos dos ancestrais falecidos possam viver em paz. Esse costume teve uma tremenda influência na vida social de alguns países buddhistas. O falecido é sempre lembrado quando alguma boa ação é feita, e ainda mais em ocasiões conectadas com suas vidas, tal como o aniversário de nascimento ou de morte. Em tais ocasiões, há um ritual geralmente praticado. O executante derrama água de uma jarra ou outra vasilha semelhante para um receptáculo, enquanto que repete uma fórmula em pāli que é traduzida como se segue:

Como rios, que quando cheios precisam correr

atingindo e enchendo a rede principal,

Assim, de fato, o que é dado aqui

atingirá e abençoará os espíritos lá.

Como a água que cai sobre o topo de uma montanha

            deve logo descer e encher a planície

Assim, de fato, o que é dado aqui

atingirá e abençoará os espíritos lá.

(Tirokuddakanda Sutta no Khuddakapatha)

A origem e o significado da transferência de méritos é um tema de debates acadêmicos. Embora esse antigo costume ainda exista hoje em muitos países buddhistas, muito poucos buddhistas que seguem esse costume antigo entendem o significado da transferência de méritos e a maneira apropriada de fazê-la.

Alguns simplesmente gastam seu tempo e seu dinheiro em cerimônias e ações sem sentido em memória dos que partiram. Essas pessoas não compreendem que é impossível ajudar os mortos simplesmente construindo grandes cemitérios, tumbas, casas de papel e outras parafernálias. Nem é possível ajudar aos que morreram queimando varinhas de incenso, papéis perfumados, etc.; nem é possível ajudar aos que morreram matando animais e oferecendo-os juntamente com outros tipos de alimento. Também não se deveria desperdiçar queimando coisas usadas pelos mortos, na suposição de que elas de alguma forma se beneficiarão com o ato, quando tais artigos poderiam, na verdade, ser distribuídos entre os necessitados.

A única maneira de ajudar os que partiram é fazer algumas ações meritórias numa forma religiosa em sua memória. As ações meritórias incluem atos como dar esmolas aos outros, construir escolas, templos, orfanatos, bibliotecas, hospitais, imprimir livros religiosos para distribuição gratuita e ações caridosas similares.

Os seguidores do Buddha deveriam agir sabiamente, não seguindo nada cegamente. Enquanto outros rezam a deus pelos que partiram, os buddhistas irradiam sua amizade amorosa diretamente a eles. Através de ações meritórias, eles podem transferir os méritos para seus entes queridos, desejando-lhes bem-estar. Essa é a melhor forma de se lembrar dos que partiram e dar-lhes uma homenagem verdadeira, perpetuando seus nomes. Nesse estado de felicidade, os que morreram enviarão reciprocamente suas bênçãos aos seus parentes vivos. É, portanto, a obrigação dos parentes relembrar seus mortos transferindo méritos e irradiando a amizade amorosa diretamente a eles.