O Conceito Buddhista de Céu e Inferno

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O sábio faz seu próprio céu enquanto que o homem tolo cria seu próprio inferno aqui e depois.

O conceito buddhista de céu e inferno é inteiramente diferente daquele de outras religiões. Os buddhistas não aceitam que tais lugares sejam eternos. Não é razoável condenar um homem ao inferno eterno devido as suas fraquezas humanas, mas é bastante razoável dar a ele todas as chances para se desenvolver. De um ponto de vista buddhista, aqueles que vão para o inferno podem ascender fazendo uso do mérito que adquiriram previamente. Não há trancas nos portões do inferno. Ele é um lugar temporário e não há razão para tais seres lá sofrerem para sempre.

O Ensinamento do Buddha nos mostra que há céus e infernos não somente abaixo desse mundo, mas nesse próprio mundo. Assim, a concepção buddhista de céu e inferno é muito razoável. Por exemplo, uma vez o Buddha disse: “Quando a pessoa ignorante comum faz uma declaração a respeito de haver um Inferno (patala) sob o oceano ele faz uma declaração que é falsa e sem base. A palavra ‘inferno’ é um termo para as sensações dolorosas”. A idéia de um lugar particular já pronto ou um lugar criado por deus como sendo céu e inferno não é aceitável como um conceito buddhista.

O fogo do inferno nesse mundo é mais quente do que o do inferno no mundo além. Não há fogo igual aos da raiva, paixão, cobiça e ignorância. De acordo com o Buddha, estamos queimando com onze formas de dores físicas e agonias mentais: paixão, ódio, ilusão, doença, decadência, morte, preocupação, lamento, dor (física e mental), melancolia e pesar. As pessoas podem incendiar o mundo inteiro com alguns desses fogos da discórdia mental. De um ponto de vista buddhista, a maneira mais fácil de definir inferno e céu é a de que onde houver mais sofrimento, nesse mundo ou em qualquer outro plano, tal lugar será um inferno para os que sofrem. E onde houver mais prazer ou felicidade, nesse mundo ou em qualquer outro plano de existência, tal lugar será um céu para aqueles que desfrutam sua vida mundana nesse lugar em particular. Entretanto, como o mundo humano é uma mistura tanto de dor como de felicidade, os seres humanos experienciam tanto a dor como a felicidade, e serão capazes de compreender a natureza real da vida. Mas em muitos outros planos de existência seus habitantes têm menos chance para essa compreensão. Em certos lugares há mais sofrimento do que prazer, enquanto que em outros há mais prazer do que sofrimento.

Buddhistas acreditam que após a morte o renascimento pode ocorrer em qualquer uma das muitas existências possíveis. Essa existência futura é condicionada pelo último momento de pensamento que uma pessoa vivencia no momento da morte. Esse último pensamento que determina a próxima existência resulta das ações passadas de um homem seja nessa vida quanto antes dela. Por isso, se o pensamento predominante reflete ações meritórias, ele então encontrará sua existência futura em um estado feliz. Mas tal estado é temporário e quando se exaure uma nova vida deve começar novamente, determinada por outra energia ‘kâmmica’ dominante. Esse processo repetitivo prossegue sem fim a menos que se chegue à ‘Compreensão Correta’ e se faça uma firme resolução por seguir o Caminho Nobre que produz a felicidade última do Nibbāna.

O céu é um lugar temporário onde aqueles que fizeram boas ações vivenciam mais prazeres sensoriais por um período mais longo. Inferno é um outro lugar temporário onde os que fizeram más ações vivenciam mais sofrimento físico e mental. Não é justificável acreditar que tais lugares sejam permanentes. Não há deus por trás das cenas do céu e do inferno. Cada pessoa tem a experiência de acordo com seu bom ou mau kamma. Os buddhistas nunca tentam apresentar o Buddhismo amedrontando as pessoas com o fogo do inferno ou seduzindo-as com o paraíso. Sua idéia principal é a construção do caráter e o treinamento mental. Os buddhistas podem praticar sua religião sem aspirar pelo céu ou temer o inferno. Sua obrigação é levar uma vida correta desenvolvendo qualidades humanas e a paz na mente.

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3 comentários em “O Conceito Buddhista de Céu e Inferno

    Manoel disse:
    10 novembro, 2006 às 5:14 pm

    Realmente aqui no samsara temos a oportunidade de observar todos os reinos e viver nelas ou ir além ; por própria vivência e aprendizado, aprendí a identificar as paisagens e tentar modificá-las, principalmente através da compaixão.
    Quando incluímos todos sem exceção, nos incluímos também.

    Gabrak disse:
    28 agosto, 2008 às 11:04 am

    “O sábio faz seu próprio céu enquanto que o homem tolo cria seu próprio inferno aqui e depois.”
    Impressionante o que contém de sabedoria essa frase. É uma pena, pois o leão indomável da mente humana está mais para tolo do que para sábio.

    adriano disse:
    11 abril, 2013 às 12:38 pm

    Belo texto.parabens

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