O melhor presente para os que morreram

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                O Buddha diz que o maior presente que alguém pode oferecer aos ancestrais falecidos é realizar ‘atos meritórios’ e transferir os méritos assim adquiridos. Ele também diz que aqueles que oferecem também recebem os frutos de suas ações. O Buddha encorajava aqueles que faziam boas ações – tais como oferecer esmolas a homens santos -, a transferir os méritos recebidos aos que faleceram. Esmolas deveriam ser dadas em nome do falecido lembrando-se dessa forma: “Quando ele estava vivo, ele me deu tal riqueza; ele fez isso para mim, ele era meu parente, meu companheiro”, etc. (Tirokudda SuttaKhuddakapatha). De nada adianta chorar, sentir-se triste, lamentar e lastimar; tais atitudes não têm conseqüências para os que morreram.

Transferir méritos para os que morreram é uma prática baseada na crença popular de que na morte de uma pessoa, seus ‘méritos’ e ‘deméritos’ são pesados um contra o outro e seu destino determinado; suas ações determinam se renascerá em uma esfera de felicidade ou em um reino de desgraça. A crença é a de que um morto poderá ter se dirigido ao mundo dos espíritos mortos. Os seres nessas formas mais baixas de existência não podem gerar novos méritos, e têm que viver com os méritos que adquiriram desse mundo.

Aqueles que não prejudicaram os outros e realizaram muitas ações benéficas durante seu tempo de vida, certamente terão a chance de renascer num lugar feliz. Tais pessoas não necessitam da ajuda dos parentes vivos. Entretanto, aqueles que não têm oportunidade de renascer numa morada feliz, sempre esperam para receber méritos de seus parentes vivos a fim de compensar suas deficiências e capacitá-los a nascer numa morada feliz.

Os que renascem na forma de espírito desafortunado podem ser libertos de sua condição sofredora através da transferência de méritos dados a eles por amigos e parentes que fazem algumas ações meritórias.

Essa injunção do Buddha de transferir méritos aos que morreram tem uma contraparte no costume hindu praticado por eras. Várias cerimônias são realizadas a fim de que os espíritos dos ancestrais falecidos possam viver em paz. Esse costume teve uma tremenda influência na vida social de alguns países buddhistas. O falecido é sempre lembrado quando alguma boa ação é feita, e ainda mais em ocasiões conectadas com suas vidas, tal como o aniversário de nascimento ou de morte. Em tais ocasiões, há um ritual geralmente praticado. O executante derrama água de uma jarra ou outra vasilha semelhante para um receptáculo, enquanto que repete uma fórmula em pāli que é traduzida como se segue:

Como rios, que quando cheios precisam correr

atingindo e enchendo a rede principal,

Assim, de fato, o que é dado aqui

atingirá e abençoará os espíritos lá.

Como a água que cai sobre o topo de uma montanha

            deve logo descer e encher a planície

Assim, de fato, o que é dado aqui

atingirá e abençoará os espíritos lá.

(Tirokuddakanda Sutta no Khuddakapatha)

A origem e o significado da transferência de méritos é um tema de debates acadêmicos. Embora esse antigo costume ainda exista hoje em muitos países buddhistas, muito poucos buddhistas que seguem esse costume antigo entendem o significado da transferência de méritos e a maneira apropriada de fazê-la.

Alguns simplesmente gastam seu tempo e seu dinheiro em cerimônias e ações sem sentido em memória dos que partiram. Essas pessoas não compreendem que é impossível ajudar os mortos simplesmente construindo grandes cemitérios, tumbas, casas de papel e outras parafernálias. Nem é possível ajudar aos que morreram queimando varinhas de incenso, papéis perfumados, etc.; nem é possível ajudar aos que morreram matando animais e oferecendo-os juntamente com outros tipos de alimento. Também não se deveria desperdiçar queimando coisas usadas pelos mortos, na suposição de que elas de alguma forma se beneficiarão com o ato, quando tais artigos poderiam, na verdade, ser distribuídos entre os necessitados.

A única maneira de ajudar os que partiram é fazer algumas ações meritórias numa forma religiosa em sua memória. As ações meritórias incluem atos como dar esmolas aos outros, construir escolas, templos, orfanatos, bibliotecas, hospitais, imprimir livros religiosos para distribuição gratuita e ações caridosas similares.

Os seguidores do Buddha deveriam agir sabiamente, não seguindo nada cegamente. Enquanto outros rezam a deus pelos que partiram, os buddhistas irradiam sua amizade amorosa diretamente a eles. Através de ações meritórias, eles podem transferir os méritos para seus entes queridos, desejando-lhes bem-estar. Essa é a melhor forma de se lembrar dos que partiram e dar-lhes uma homenagem verdadeira, perpetuando seus nomes. Nesse estado de felicidade, os que morreram enviarão reciprocamente suas bênçãos aos seus parentes vivos. É, portanto, a obrigação dos parentes relembrar seus mortos transferindo méritos e irradiando a amizade amorosa diretamente a eles.

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6 comentários em “O melhor presente para os que morreram

    ana disse:
    10 outubro, 2006 às 8:47 am

    Bom dia Ricardo,

    Obrigada…

    ana

    andreia mello disse:
    29 agosto, 2008 às 12:32 pm

    Bom dia Ricardo,
    Obgda pelo texto. perdi meu namorado, meu grande amor, meu amigo e meu confidente em 25/08/08. enterrei seu corpo nos rituais católicos que é a religião da familia. sinto-me confusa pq ao meu tempo q sei q ele esta bem e livre sinto um desejo imenso de “ter notícias” dele.meu coração esta cheio de dor e lágrimas e é dificil fazer diferente. sinto paz pq sei q nos ultimos anos nossos momentos mais felizes foram vividos juntos. nada restou a ser dito. o tempo é q acho q foi pouco e tinha planos para uma velhice juntos, mas acho q ele resolveu ir antes…
    se vc tiver mais alguma coisa para eu ler… por favor envia.
    abs
    andreia

    dhanapala respondido:
    30 agosto, 2008 às 11:23 am

    Olá Andréia. Sinto pela perda. Para vc, sugiro “Quando tudo se Desfaz” de Pema Chodron.

    Alexandre Canella disse:
    17 janeiro, 2009 às 8:31 am

    Muito obrigado pelos esclarecimentos!

    Ronaldo disse:
    16 junho, 2013 às 6:04 pm

    E as ações de POWA, que é um ritual/oração até 45 dias após a morte de uma pessoa? Seria tb uma ação meritória?

    wALDIK souza disse:
    30 janeiro, 2014 às 8:49 am

    VEJAM O LIVRO ” vazio luminoso”.

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