Capítulo 05

Tipitaka (ou Tripitaka)

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O Tipitaka é a coleção de ensinamentos que o Buddha ensinou por mais de 45 anos e guardados na língua pali. Ele consiste do Sutta (ensinamentos convencionais), Vinaya (código de disciplina), e Abhidhamma (psicologia moral)

O Tripitaka foi compilado e organizado em sua forma atual por aqueles Arahants que tiveram contato imediato com o próprio Mestre.

O Buddha morreu, mas o Dhamma sublime que legou sem reservas à humanidade ainda existe em sua clara pureza. Embora o Mestre não tenha deixado relatos escritos de Seus Ensinamentos, Seus notáveis discípulos os preservaram fielmente, guardando-os na memória e transmitindo-os oralmente de geração a geração.

Imediatamente após a morte do Buddha, 500 notáveis Arahants realizaram uma convenção conhecida como o Primeiro Concílio Buddhista a fim de recitar a Doutrina ensinada pelo Buddha. O Venerável Ananda, fiel atendente do Buddha que teve o privilégio de ouvir todos os discursos que o Buddha proferiu, recitou o Dhamma, enquanto que o Venerável Upali recitou o Vinaya, as regras de conduta para a Sangha.

Cem anos após o Primeiro Concílio Buddhista, durante o reinado do rei Kalasoka, alguns discípulos viram a necessidade de mudar certas regras menores. Os monges ortodoxos disseram que nada deveria ser mudado, enquanto que outros insistiram na modificação de algumas regras disciplinares (Vinaya). Finalmente, a formação de diferentes escolas de Buddhismo germinou após esse concílio. E no Segundo Concílio somente assuntos pertinentes ao Vinaya foram discutidos e nenhuma controvérsia sobre o Dhamma foi relatada.

No terceiro século a.C., durante o tempo do imperador Asoka, o Terceiro Concílio teve lugar para discutir as diferenças de opinião presentes na comunidade da Sangha. Nesse Concílio as diferenças não estiveram confinadas somente ao Vinaya, mas também estiveram conectadas ao Dhamma. Ao fim desse Concílio, seu presidente, o Venerável Moggaliputta Tissa, compilou um livro chamado Kathavatthu que refutava as opiniões falsas e teorias heréticas de alguns discípulos. O ensinamento aprovado e aceito por esse Concílio foi conhecido como Theravada ou ‘Caminho dos Mais Velhos’. O Abhidhamma Pitaka foi discutido e incluído nesse Concílio. O Quarto Concílio teve lugar no Sri Lanka em 80 a.C. sob a patronagem do devoto rei Vattagamini Abhaya. Foi nessa época, no Sri Lanka, que o Tipitaka foi submetido à escrita, pela primeira vez no mundo.

Deve ser enfatizado que embora o processo de escrita tenha continuado, a tradição básica sempre permaneceu oral. Cada aspecto do ensinamento foi mantido e venerado na memória ao invés da forma escrita. Esse é o porquê dos discípulos serem conhecidos como ouvintes savakas. Recitando e ouvindo, eles mantiveram o ensinamento na tradição oral por mais de 2500 anos.

O Tripitaka consiste das três seções dos Ensinamentos do Buddha. Elas são a Disciplina (Vinaya Pitaka), os Discursos (Sutta Pitaka) e a Doutrina Absoluta (Abhidhamma Pitaka).

O Vinaya Pitaka lida principalmente com o código de disciplina da Ordem dos monges (bhikkhus) e monjas (bhikkhunis). Ele descreve com detalhes o desenvolvimento gradual da Sasana (Dispensação). Ele também provê um relato da vida e ministério do Buddha. Revela, indiretamente, algumas informações úteis sobre a história antiga, costumes indianos, artes, ciências, etc.

Por quase vinte anos desde Sua Iluminação, o Buddha não prescreveu regras para o controle da Sangha. Mais tarde, quando a ocasião surgiu e o número de monges aumentou, o Buddha promulgou regras para a futura disciplina da Sangha.

Este Pitaka consiste de cinco livros:

1. Parajika Pali (Ofensas Maiores)
2. Pacittiya Pali (Ofensas Menores)
3. Mahavagga Pali (Grande Seção)
4. Cullavagga Pali (Pequena Seção)
5. Parivara Pali (Epítome do Vinaya)

Sutta Pitaka

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O Sutta Pitaka consiste primariamente dos discursos feitos pelo Buddha em várias ocasiões. Há também uns poucos discursos vindos de alguns de Seus discípulos mais notáveis, tais como os veneráveis Sariputta, Ananda, Moggallana, e várias veneráveis mulheres como Khema, Uttara, Visakha, etc. É como um livro de conselhos, pois os sermões nele incorporados foram expostos para se adaptar a diferentes ocasiões e temperamentos de várias pessoas. Algumas declarações podem parecer contraditórias, mas não devem ser mal interpretadas, pois foram proferidas pelo Buddha de maneira oportuna a fim de se adaptar a propósitos particulares.

Esse Pitaka está dividido em cinco Nikayas ou coleções, a saber:

1. Digha Nikaya (Coleção dos Discursos Longos)
2. Majjhima Nikaya (Coleção dos Discursos Medianos)
3. Samyutta Nikaya (Coleção dos Discursos Associados)
4. Anguttara Nikaya (Coleção dos Discursos arranjados segundo o Número)
5. Khuddaka Nikaya (Coleção Menor)

O quinto Nikaya é subdivido em quinze livros:

1. Khuddaka Patha (Textos Curtos)
2. Dhammapada (O Caminho da Verdade)
3. Udana (Declarações vindas do fundo do coração ou Declarações de Alegria)
4. Itivuttaka (Discursos ‘Assim disse’)
5. Sutta Nipata (Discursos Coletados)
6. Vimana Vatthu (Histórias das Mansões Celestiais)
7. Peta Vatthu (Histórias dos Petas)
8. Theragatha (Salmos dos Irmãos)
9. Therigatha (Salmos das Irmãs)
10. Jataka (Histórias de Nascimentos)
11. Niddesa (Exposições)
12. Patisambhida (Conhecimento Analítico)
13. Apadana (Vidas dos Santos)
14. Buddhavamsa (A História do Buddha)
15. Cariya Pitaka (Modos de Conduta)

Abhidhamma Pitaka

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Para um pensador profundo, o Abhidhamma é a coleção mais importante e interessante, pois contém a filosofia e psicologia profunda do ensinamento do Buddha, em contraste com os discursos iluminados, mas convencionais, do Sutta Pitaka.

No Sutta Pitaka se encontra frequentemente referências ao indivíduo, ser, etc, mas no Abhidhamma, ao invés de tais termos convencionais, encontramos termos últimos, tais como agregados, mente, matéria, etc.

No Sutta é encontrado o Vohara Desana (Ensinamento Convencional), enquanto que no Abhidhamma é encontrado o Paramattha Desana (Doutrina Derradeira). No Abhidhamma tudo é analisado e explicado em detalhes, e por isso é chamado de doutrina analítica (Vibhajja Vada). Quatro coisas derradeiras (paramattha) são enumeradas no Abhidhamma. Elas são: Citta (consciência), Cetasika (concomitantes mentais), Rupa (matéria) e Nibbana.

O assim chamado ‘ser’ é microscopicamente analisado e suas partes componentes são minuciosamente descritas. Por fim, o objetivo último e o método para atingi-lo são explicados com todos os detalhes necessários.

O Abhidhamma Pitaka é composto das seguintes obras:

1. Dhamma-Sangani (Enumeração dos Fenômenos)
2. Vibhanga (O Livro dos Tratados)
3. Katha Vatthu (Pontos de Controvérsia)
4. Puggala Pannatti (Descrição dos Indivíduos)
5. Dhatu Katha (Discussão com Referência aos Elementos)
6. Yamaka (O Livro dos Pares)
7. Patthana (O Livro das Relações)

De acordo com outra classificação, mencionada pelo próprio Buddha, a totalidade do Ensinamento possui nove partes, a saber:

1. Sutta; 2. Geyya; 3. Veyyakarama; 4. Gatha; 5. Udana; 6. Itivuttaka; 7. Jataka; 8. Abbhutadhamma; 9. Vedalla.

1. Sutta: São os discursos curtos, médios e longos expostos pelo Buddha em várias ocasiões, tais como o Mangala Sutta (Discurso sobre as Bênçãos), Ratana Sutta (Discurso das Jóias), Metta Sutta (Discurso da Boa Vontade), etc. De acordo com o Comentário, o Vinaya Pitaka também se inclui nessa divisão.
2. Geyya: São discursos misturados com o gathas ou versos, tal como o Sagathavagga do Samyutta Nikaya.
3. Veyyakarana: Literalmente ‘exposições’. Todo o Abhidhamma Pitaka, os discursos sem versos, e tudo o que não está incluído nas outras oito divisões pertencem a essa classe.
4. Gatha: Inclui os versos encontrados no Dhammapada (Caminho da Verdade), Theragatha (Salmo dos Irmãos), Therigatha (Salmos das Irmãs), e versos isolados que não estão classificados entre os Sutta.
5. Udana: São as ‘Declarações de Alegria’ encontradas no Udana, uma das divisões do Khuddaka Nikaya.
6. Itivuttaka: São os 112 discursos que iniciam com a frase ‘Assim, o Bem-Aventurado disse’. Itivuttaka é um dos quinze livros presentes no Khuddaka Nikaya.
7. Jataka – São as 547 estórias de nascimento relatadas pelo Buddha em conexão com Seus nascimentos prévios.
8. Abbhutadhamma: São alguns poucos discursos que lidam com coisas fantásticas e maravilhosas como, por exemplo, o Acchariya-Abbhutadhamma Sutta do Majjhima Nikaya (MN 123).
9. Vedalla: São os discursos prazerosos, tais como Culla Vedalla, Maha Vedalla (MN 43, 44), Sammaditthi Sutta (MN 9), etc. Em alguns desses discursos, as respostas dadas a certas questões são colocadas com um sentimento de alegria.

O que é Abhidhamma?

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Abhidhamma é a doutrina analítica sobre as faculdades mentais e elementos

O Abhidhamma Pitaka contém a profunda psicologia e filosofia moral do ensinamento do Buddha, em contraste com os discursos morais do Sutta Pitaka.

O conhecimento obtido do Sutta pode certamente nos ajudar na superação de nossas dificuldades, bem como no desenvolvimento de nossa conduta moral e no treinamento da mente. Ter tais conhecimentos nos capacita a levar uma vida pacífica, respeitável, inofensiva e nobre. Ao ouvir os discursos, desenvolvemos o entendimento do Dhamma e podemos moldar nossa vida diária de acordo. Os conceitos por trás de certas palavras e termos usados no Sutta Pitaka são, entretanto, sujeitos a mudanças e deveriam ser interpretados dentro do contexto do ambiente social prevalecente no tempo do Buddha. Os conceitos usados no Sutta são como as palavras e termos convencionais usados pelos leigos para expressar temas científicos. Enquanto que os conceitos no Sutta são para serem entendidos no sentido convencional, os usados no Abhidhamma devem ser entendidos no sentido último. Os conceitos expressos no Abhidhamma são como as palavras e termos científicos e técnicos bem precisos usados pelos cientistas para evitar maus entendimentos.

Somente no Abhidhamma que explicações são dadas sobre como e em que compasso mental uma pessoa pode criar bons e maus pensamentos kármicos, de acordo com seus desejos e outros estados mentais. Explicações claras sobre a natureza das diferentes faculdades mentais e interpretações analíticas precisas dos elementos podem ser encontrados nessa importante coleção de discursos.

Compreender o Dhamma por meio do conhecimento adquirido do Sutta é como o conhecimento adquirido do estudo das prescrições de diferentes tipos de doença. Tal conhecimento, quando aplicado, pode certamente ajudar a curar certos tipos de doenças. Por outro lado, um médico qualificado, com um conhecimento preciso, pode diagnosticar uma variedade mais ampla de doenças e descobrir suas causas. Esse conhecimento especializado o coloca numa melhor posição para prescrever remédios mais efetivos. Similarmente, uma pessoa que estudou o Abhidhamma pode melhor compreender a natureza da mente e analisar as atitudes mentais que causam um ser humano a cometer enganos e desenvolver a vontade de evitar o mal.

O Abhidhamma ensina que as crenças egoístas e outros conceitos tais como ‘eu’, ‘você’, ‘pessoa’ e ‘o mundo’, que usamos na conversação diária, não descrevem adequadamente a natureza real da existência. Os conceitos convencionais não refletem a natureza passageira dos prazeres, incertezas, impermanência de toda coisa composta e o conflito entre os elementos e a energia intrínseca em todas as coisas animadas ou inanimadas. A doutrina do Abhidhamma fornece uma exposição clara sobre a natureza última dos seres humanos e leva a análise da condição humana mais adiante do que outros estudos.

O que é Abhidhamma? – 2

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O Abhidhamma lida com realidades existentes num sentido último (paramattha dhamma em pali). Há quatro dessas realidades:

1. – Citta, mente ou consciência: definida como ‘o que conhece ou experiencia’ um objeto. Citta ocorre como estados momentâneos distintos de consciência.
2. – Cetasika: fatores mentais que surgem e ocorrem junto com citta.
3. – Rupa: fenômenos físicos e forma material.
4. – Nibbana: o estado incondicionado de bênção, que é o objetivo final.

Citta, cetasika e rupa são realidades condicionadas. Surgem devido a condições e desaparecerão quando cessarem as condições que os sustentam. São estados impermanentes. Nibbana, por outro lado, é uma realidade incondicionada. Não começa e, portanto, não desaparece. Essas quatro realidades podem ser experienciadas, não importando os nomes que escolhemos dar a elas. Além dessas realidades, tudo – estando dentro ou fora de nós, seja no passado, presente ou futuro, seja grosseiro ou sutil, inferior ou sublime, seja perto ou longe – não é mais que um conceito e não a realidade fundamental.

Citta, cetasika e Nibbana são também chamados de nama. Nibbana é um nama incondicionado. Os dois namas condicionados, isto é, citta e cetasika, quando adicionados a rupa (forma), constituem os organismos psicofísicos, inclusive os seres humanos. Mente e matéria (nama-rupa) são analisados no Abhidhamma como se submetidos a um microscópio. Eventos conectados com o processo de nascimento e morte são explicados em detalhe. O Abhidhamma clareia pontos intrincados do Dhamma e capacita o surgimento de uma compreensão da realidade, delineando assim, em claros termos, o Caminho para a Emancipação. A realização que obtemos por meio do Abhidhamma em relação às nossas vidas e ao mundo não pode ser entendida num sentido convencional, mas no de realidade absoluta.

A exposição clara dos processos de pensamento no Abhidhamma não pode ser encontrada em nenhum outro tratado psicológico seja do oriente como do ocidente. A consciência é definida, enquanto os pensamentos são analisados e classificados principalmente de um ponto de vista ético. A composição de cada tipo de consciência é delineada em detalhes. O fato de a consciência fluir como uma corrente, uma visão proposta por psicólogos como William James, se torna extremamente claro para quem entende o Abhidhamma. Além disso, um estudante do Abhidhamma pode compreender totalmente a doutrina de Anatta (não-self), que é importante tanto do ponto de vista filosófico quanto ético.

O Abhidhamma explica o processo do renascimento em vários planos após a ocorrência da morte sem nada passando de uma vida para outra. Essa explicação apóia a doutrina do Kamma e do Renascimento. Provê também uma riqueza de detalhes sobre a mente, bem como sobre as unidades das forças mentais e materiais, propriedades da matéria, fontes da matéria e relacionamento de mente e matéria.

O que é Abhidhamma? – 3

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No Abhidhammattha Sangaha, um manual de Abhidhamma, há uma breve exposição da ‘Lei da Originação Dependente’, seguida por um relato descritivo das Relações Causais, do qual não se encontra paralelo em nenhum outro estudo da condição humana em qualquer lugar do mundo. Por causa de suas exposições analíticas e profundas, o Abhidhamma não é um tema de interesse passageiro para um leitor superficial.

Como podemos comparar a psicologia moderna com a análise oferecida no Abhidhamma? A psicologia moderna, limitada como é, faz parte do escopo do Abhidhamma tanto quanto lida com a mente – com pensamentos, processos de pensamento e estados mentais. A diferença jaz no fato de que o Abhidhamma não aceita o conceito de uma psiquê ou alma.

A análise da natureza da mente dada no Abhidhamma não está disponível em qualquer outra fonte. Mesmo os psicólogos modernos andam no escuro em relação a temas como os impulsos mentais ou o compasso mental (javana citta), tais como discutidos no Abhidhamma. O Dr. Graham Howe, um eminente psicólogo de Harley Street, escreveu em seu livro ‘A Anatomia Invisível’:

Durante o curso de seus trabalhos, os psicólogos descobriram, assim como a obra pioneira de C.G. Jung mostrou, que estamos mais perto do Buddha. Ler um pouco de Buddhismo é perceber que os buddhistas já conheciam, 2500 atrás, bem mais sobre nossos problemas modernos de psicologia do que foi dado o crédito. Eles estudaram esses problemas há tempos e também descobriram as respostas. Estamos agora redescobrindo a Antiga Sabedoria do Oriente’.

Alguns eruditos afirmam que o Abhidhamma não é o ensinamento do Buddha, mas que surgiu a partir dos comentários aos ensinamentos básicos do Buddha. Esses comentários são ditos ser a obra de grandes monges eruditos. A tradição, entretanto, atribui o núcleo do Abhidhamma ao próprio Buddha.

Os comentadores declaram que o Buddha, como um sinal de gratidão à Sua mãe, que havia nascido como um deva num plano celestial, pregou o Abhidhamma a ela, juntamente a outros devas, continuamente por três meses. Os tópicos principais (matika) do ensinamento avançado, tais como os estados morais (kusala dhamma) e estados imorais (akusala dhamma) foram, então, repetidos pelo Buddha ao Venerável Sariputta Thera, o qual subsequentemente elaborou-os e mais tarde compilou-os em seis livros.

O que é Abhidhamma? – 4

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Desde os tempos antigos existiram controvérsias com relação ao Abhidhamma ter sido realmente ensinado pelo Buddha. Apesar de essa discussão poder ser interessante para propósitos acadêmicos, o que é importante para nós é experienciar e entender as realidades descritas no Abhidhamma. O indivíduo perceberá por si mesmo que tais verdades profundas e consistentemente verificáveis poderiam somente emanar de uma fonte supremamente iluminada – de um Buddha. Muito do que é contido no Abhidhamma é também encontrado no Sutta Pitaka; e tais sermões nunca foram ouvidos até terem sido proferidos primeiramente pelo Buddha. Assim, aqueles que dizem que o Buddha não foi a fonte do Abhidhamma teriam que dizer o mesmo em relação aos Suttas. Tal declaração, claro, não pode ser sustentada pela evidência.

De acordo com a tradição Theravada, a essência, bases e estrutura do Abhidhamma são atribuídas ao Buddha, embora as tabelas e classificações possam ter sido o trabalho de discípulos posteriores. O que é importante é a essência. É isso o que deveríamos tentar experienciar por nós mesmos. O próprio Buddha tomou claramente essa posição de usar o conhecimento do Abhidhamma para clarear muitos problemas psicológicos, metafísicos e filosóficos existentes. Meros sofismas intelectuais sobre se o Buddha ensinou ou não o Abhidhamma não nos ajudarão a entender a realidade.

Dúvidas também são levantadas se o Abhidhamma é essencial para a prática do Dhamma. A resposta para isso irá depender do indivíduo que empreende a prática. As pessoas variam em seus níveis de entendimento, temperamento e desenvolvimento espiritual. Idealmente, todas as diferentes faculdades espirituais deveriam estar harmonizadas, mas algumas pessoas permanecem bem contentes com suas práticas devocionais baseadas na fé, enquanto outras se interessam no desenvolvimento do insight penetrante. O Abhidhamma é mais útil para aqueles que desejam entender o Dhamma mais profundamente e em detalhes. Ele ajuda o desenvolvimento do insight quanto às três características da existência: impermanência, insatisfatoriedade e não-eu. É útil, não apenas para os períodos dedicados à meditação formal, mas também durante o resto do dia quando estamos engajados em várias tarefas mundanas. Usufruímos de grande benefício do estudo do Abhidhamma quando experienciamos a absoluta realidade. Além disso, um conhecimento abrangente do Abhidhamma é útil para aqueles engajados no ensino e explanação do Dhamma. De fato, o significado real das mais importantes terminologias buddhistas, tais como Dhamma, Kamma, Samsara, Sankhara, Paticcasamuppada e Nibbana não podem ser entendidos sem o conhecimento do Abhidhamma.

Mente e Matéria (nama-rupa)

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‘O que é mente? Não importa. O que é matéria? Não se preocupe’.

De acordo com o Buddhismo, a vida é uma combinação de mente (nama) e matéria (rupa). Mente consiste da combinação de sensações, percepções, atividades volitivas e consciência. Matéria consiste da combinação de quatro elementos: solidez, fluidez, movimento e calor.

A vida é a coexistência de mente e matéria. A decadência é a falta de coordenação entre mente e matéria. A morte é a separação de mente e matéria. O renascimento é a recombinação de mente e matéria. Após o passamento do corpo físico (matéria), as forças mentais (mente) se recombinam e assumem uma nova combinação em uma forma material diferente e condicionam outra existência.

A relação da mente com a matéria é como a relação de uma bateria com o motor de um carro. A bateria ajuda a iniciar o motor. O motor ajuda a carregar a bateria. A combinação ajuda a movimentar o carro. Da mesma maneira, a matéria ajuda a mente a funcionar e a mente ajuda a colocar a matéria em movimento.

O Buddhismo ensina que a vida não é apenas a propriedade da matéria e que o processo de vida continua ou flui como um resultado de causa e efeito. Os elementos mentais e materiais que compõem os seres sencientes, desde a ameba ao elefante, incluindo o homem, existiram previamente em outras formas.

Embora algumas pessoas mantenham a visão de que a vida se origina somente da matéria, os maiores cientistas aceitaram que a mente precede a matéria a fim de a vida se originar. No Buddhismo, esse conceito é chamado de ‘consciência de religação’.

Cada um de nós, no sentido último, é mente e matéria, um composto de fenômenos mentais e materiais, e nada mais. Fora dessas realidades que formam o composto nama-rupa, não há self ou alma. A parte mental da composição é o que experiencia um objeto. A parte material nada experiencia. Quando o corpo é danificado, não é o corpo que sente dor, mas o lado mental. Quando estamos famintos não é o estomago que sente fome, mas a mente. Entretanto, a mente não pode comer o alimento para aliviar a fome. A mente e seus fatores fazem o corpo digerir a comida. Assim, nem nama nem rupa têm poder eficiente isoladamente. Um depende do outro; um sustenta o outro. Mente e matéria surgem ambas devido a condições e perecem imediatamente, e isso acontece a todo momento de nossas vidas. Pelo estudo e experiência dessas realidades conquistaremos insights como: (1) o que somos realmente; (2) o que encontramos ao nosso redor; (3) Como e porque reagimos em relação ao que está dentro de nós e à nossa volta; e (4) o que deveríamos aspirar alcançar como um objetivo espiritual.

Obter insight quanto à natureza da vida psicofísica é perceber que a vida é uma ilusão, uma miragem ou uma bolha, um mero processo de se tornar e dissolver ou surgir e desaparecer. Seja o que for que exista, isso surge de causas e condições. Quando causas e condições cessam, a coisa cessa de existir.

As Quatro Nobres Verdades

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Por que estamos aqui? Por que não somos felizes com nossas vidas? Qual é a causa de nossa insatisfação? Como podemos ver o fim da insatisfação e experienciar a paz eterna?

O Ensinamento do Buddha é baseado nas Quatro Nobres Verdades. Compreender essas Verdades é compreender e penetrar na verdadeira natureza da existência, incluindo o total conhecimento de si mesmo. Quando reconhecemos todos os fenômenos como sendo transitórios, sujeitos ao sofrimento e desprovidos de qualquer realidade essencial, ficaremos convencidos de que a verdadeira e duradoura felicidade não pode ser encontrada nas possessões materiais e aquisições mundanas, que a verdadeira felicidade deve ser buscada apenas através da pureza mental e do cultivo da sabedoria.

As Quatro Nobres Verdades são um importante aspecto do ensinamento do Buddha. O Buddha disse que é porque fracassamos em entender as Quatro Nobres Verdades que continuamos a girar no ciclo do nascimento e morte. Em seu primeiro sermão, o Dhammacakka Sutta, que o Buddha proferiu para os cinco monges no Parque das Gazelas em Sarnath, ele explicou as Quatro Nobres Verdades e o Caminho Óctuplo. Estas são as Quatro Nobres Verdades:

A Nobre Verdade sobre Dukkha
A Nobre Verdade sobre a Causa de Dukkha
A Nobre Verdade sobre o Fim de Dukkha
A Nobre Verdade sobre o Caminho que leva ao Fim de Dukkha

Há muitas maneiras de entender a palavra pali ‘dukkha’. Ela tem sido geralmente traduzida como ‘sofrimento’ ou ‘insatisfatoriedade’, mas esse termo, tal como usado nas Quatro Nobres Verdades, tem um significado mais profundo e amplo. Dukkha contém não apenas o significado ordinário de sofrimento, mas também inclui idéias mais profundas tais como imperfeição, dor, impermanência, desarmonia, desconforto, irritação ou consciência da incompletude e insuficiência. Dukkha inclui o sofrimento físico e mental: nascimento, decadência, doença, morte, estar unido ao desagradável, estar separado do agradável, não conseguir o que se deseja. Entretanto, muitas pessoas não compreendem que mesmo durante os momentos de alegria e felicidade, há dukkha por tais momentos serem todos estados impermanentes que irão passar quando as condições mudarem. Portanto, a verdade de dukkha abrange toda a existência, em nossa felicidade e pesar, em cada aspecto de nossas vidas. Tanto quanto vivermos, seremos profundamente sujeitos a essa verdade.

As Quatro Nobres Verdades – 2

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Algumas pessoas podem ter a impressão de que ver a vida em termos de dukkha é um tanto pessimista ou negativo. Essa não é uma maneira pessimista, mas realista. Se alguém padece de uma doença e se recusa a reconhecer o fato de que se está doente e, como resultado, recusa buscar um tratamento, não consideraremos tal atitude mental como sendo otimista, mas meramente como tola. Portanto, ao ser otimista ou pessimista, a pessoa não compreende realmente a natureza da vida e, assim, é incapaz de considerar os problemas da vida sob a perspectiva correta. As Quatro Nobres Verdades começam com o reconhecimento de dukkha e então procedem analisando sua causa e buscando sua cura. Se o Buddha tivesse parado na Verdade de Dukkha, então se poderia dizer que o Buddhismo identificou o problema, mas não ofereceu a cura; se fosse esse o caso, então a situação humana não teria esperança. Entretanto, não somente a Verdade de Dukkha é reconhecida, mas o Buddha procedeu analisando sua causa e o caminho da cura. Como pode o Buddhismo se considerado pessimista se a cura do problema é conhecida? De fato, este é um ensinamento repleto de esperança.

Além disso, ainda que dukkha seja uma nobre verdade, isso não significa que não haja felicidade, desfrute e prazer na vida. Existem, e o Buddha ensinou vários métodos a partir dos quais podemos obter mais felicidade em nossa vida diária. Entretanto, numa análise final, o fato permanece de que o prazer ou a felicidade que experienciamos na vida é impermanente. Podemos desfrutar de uma situação feliz, da boa companhia de alguém que amamos ou desfrutar da juventude e da saúde. Cedo ou tarde, quando esses estados sofrerem uma mudança, experienciaremos sofrimento. Dessa forma, ainda que haja todas as razões para nos sentirmos alegres quando experienciamos felicidade, não deveremos nos agarrar a tais estados felizes ou nos desviarmos e nos esquecermos de continuar nosso esforço no caminho da completa Libertação.

Se desejarmos nos curar do nosso sofrimento, precisaremos primeiramente identificar sua causa. De acordo com o Buddha, a ânsia ou desejo sedento (tanha ou raga) é a causa do sofrimento. Essa é a Segunda Nobre Verdade. Pessoas anseiam por experiências agradáveis, anseiam por coisas materiais, anseiam pela vida eterna e, quando desapontadas, anseiam pela morte eterna. Não estão apenas apegadas aos prazeres sensuais, riqueza e poder, mas também a idéias, visões, opiniões, conceitos, crenças. E o anseio está conectado com a ignorância, ou seja, não ver as coisas como realmente são ou fracassar em entender a realidade da experiência e da vida. Sob essa ilusão do Self e não compreendendo anatta (não-self), uma pessoa se apega a coisas que são impermanentes, mutáveis e perecíveis. O fracasso em satisfazer os próprios desejos através dessas coisas causa desapontamento e sofrimento.