Uma primeira causa pode ser conhecida?

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É bastante difícil para nós entendermos como o mundo veio à existência sem uma primeira causa. Mas é ainda muito mais difícil entender como a primeira causa veio a existir no começo

De acordo com o Buddha, é inconcebível encontrar uma primeira causa para a vida ou qualquer outra coisa, pois na experiência comum, a causa se torna o efeito e o efeito se torna a causa. No círculo de causa e efeito, a primeira causa é incompreensível. Com relação à origem da vida, o Buddha declara: ‘Sem um fim conhecido é este recorrente vagar no Samsara (ciclo de nascimento e morte). Os seres estão obstruídos pela ignorância e presos pelo desejo sedento. Um primeiro início desses seres não é percebido’ (Anamatagga Samyutta ~ Samyutta Nikaya). Esse fluxo de vida flui ad infinitum, tanto quanto é alimentado pelas águas barrentas da ignorância e do desejo sedento. Quando esses dois são cortados somente então o fluxo de vida cessa de correr, somente então o renascimento chega a um fim.

É difícil conceber um fim para o espaço. É difícil conceber uma duração eterna do que chamamos de tempo. Mas é mais difícil conceber um tempo quando não há tempo. Da mesma forma, é bastante difícil para nós entendermos como o mundo veio à existência sem uma primeira causa. Mas é ainda muito mais difícil entender como a primeira causa veio a existir no começo. Pois, se a primeira causa pode existir apesar de incriada, não há razão para que outros fenômenos do universo não possam existir sem ter também sido criados.

Quanto à questão de como todos os seres vieram a existir sem a primeira causa, a resposta do Buddha é de que não há resposta (* conferir a seção sobre o ‘o Silêncio do Buddha’ no capítulo 2) porque a questão em si mesma é meramente um produto da compreensão limitada dos seres humanos. Se podemos entender a natureza do tempo e da relatividade, devemos ver que não poderia haver qualquer primeiro começo. Somente é possível indicar que todas as respostas usuais a essa questão são fundamentalmente defeituosas. Se assumimos que para uma coisa existir ela deva ter um criador que existiu antes dela, então, logicamente, esse próprio criador deve ter tido um criador, e assim por diante até o infinito. Por outro lado, se o criador pode existir sem uma causa primeira na forma de outro criador, todo o argumento cai por terra. A teoria de um criador não resolve qualquer problema, somente complica aquele existente.

O Buddhismo, assim, não presta muita atenção a teorias e crenças sobre a origem do mundo. Se o mundo foi criado por um deus ou se veio a existir por si mesmo faz pouca diferença para os buddhistas. Se o mundo é finito ou infinito também faz pouca diferença. Ao invés de fazer especulações teóricas, o Buddha aconselhou as pessoas a captarem o fato de que sua existência presente é sofrimento, e assim devem trabalhar bastante para encontrar sua própria salvação.

Os cientistas têm descoberto muitas causas que são responsáveis pela existência da vida, plantas, planetas, elementos e outras energias. Mas é impossível para os seres humanos encontrar qualquer primeira causa particular para sua existência. Se prosseguem na procura pela primeira causa de qualquer vida ou coisa existente, eles indicam certas causas como a causa principal, mas isso nunca se torna a primeira causa. No processo de buscar a primeira causa, uma após a outra, eles chegarão ao lugar onde estavam. Isso é porque a causa se torna o efeito e, no próximo momento, tal efeito se torna a causa que produz outro efeito. Foi por isso que o Buddha disse: ‘Uma primeira causa é incompreensível e o universo é sem começo’.

Um comentário em “Uma primeira causa pode ser conhecida?

    Índice « No Que Os Buddhistas Acreditam disse:
    28 setembro, 2010 às 10:30 am

    […] Uma primeira causa pode ser conhecida? […]

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