os Sonhos e seus Significados

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‘A vida nada mais é do que um sonho’

Um dos maiores problemas não resolvidos do homem é o mistério dos sonhos. Desde os primeiros tempos o homem tentou analisar os sonhos e explicá-los em termos proféticos e psicológicos, mas embora tenha havido algum sucesso recentemente, provavelmente não estamos mais pertos das respostas a essa desconcertante questão: ‘O que é um sonho?’

O grande poeta romântico inglês William Wordsworth tinha um conceito surpreendente, o de que essa vida que vivemos é meramente um sonho e de que iremos ‘acordar’ para a ‘realidade’ quando morrermos, quando nosso ‘sonho’ terminar.

‘Nosso nascimento não é mais que um sono e esquecimento:
A Alma, que surge conosco, nossa estrela de vida,
Teve alhures seu ocaso,
E veio de longe’.

Um conceito similar é expresso num encantador conto buddhista antigo que conta sobre um deva que brincava com outros devas. Cansado, ele se deitou para tirar um cochilo, e morreu. Renasceu como uma menina na terra. Ela se casou, teve alguns filhos e viveu até ficar bem velha. Após sua morte ela novamente nasceu como um deva entre os mesmos companheiros que haviam acabado de terminar sua brincadeira. (Essa estória também ilustra a relatividade do tempo, ou seja, como o conceito do tempo no mundo humano é muito diferente do tempo em um outro plano de existência).

O que o Buddhismo tem a dizer a respeito dos sonhos? Como em todas as culturas, o Buddhismo tem seu número de pessoas que se dizem hábeis na interpretação dos sonhos. Tais pessoas ganham muito dinheiro explorando a ignorância de homens e mulheres que acreditam que cada sonho tenha um significado espiritual ou profético.

De acordo com a psicologia buddhista, os sonhos são processos ideacionais que ocorrem como atividades da mente. Considerando a ocorrência de sonhos é relevante lembrar que o processo de dormir pode ser tomado como possuindo cinco estágios:

1. sonolência

2. sono leve

3. sono profundo

4. sono leve

5. e acordar

O significado e a causa dos sonhos foram tema de discussões no famoso livro ‘Milinda Panha’ ou ‘As Perguntas do Rei Milinda’, no qual o Venerável Nagasena declarou que havia seis causas para os sonhos, três sendo orgânicas (vento, bílis e fleuma). A quarta é devido à intervenção de forças sobrenaturais; a quinta, o reviver de experiências do passado; e a sexta, a influência de eventos futuros. Está categoricamente declarado que os sonhos ocorrem somente no estágio do sono leve, que é dito ser como o sono do macaco. Das seis causas dadas, o Ven. Nagasena declarou positivamente que a última, a saber, os sonhos proféticos são os únicos a ter importância e os outros são relativamente insignificantes.

Sonhos são fenômenos criados pela mente e são atividades da mente. Todos os seres humanos sonham, embora algumas pessoas não consigam se lembrar deles. O Buddhismo ensina que alguns sonhos têm significado psicológico. As seis causas mencionadas anteriormente também podem ser classificadas da seguinte maneira:

I. Cada pensamento único que é criado fica armazenado em nosso subconsciente e alguns deles influenciam fortemente a mente de acordo com nossas ansiedades. Quando dormimos, alguns desses pensamentos são ativados e nos aparecem como ‘imagens’, se movendo diante de nós. Isso acontece porque durante o sonho, os cinco sentidos que constituem nosso contato com o mundo exterior, ficam temporariamente suspensos. A mente subconsciente fica então livre para se tornar dominante e para ‘re-apresentar’ os pensamentos que estavam estocados. Tais sonhos podem ser de valor para a psiquiatria, mas não podem ser classificados como proféticos. São meramente reflexos da mente em descanso.

II. O segundo tipo de sonho também não tem significado. São causados por provocações internas e externas que disparam um curso de ‘pensamentos visuais’, os quais são vistos pela mente em descanso. Fatores internos são aqueles que perturbam o corpo (por exemplo, uma refeição pesada que não nos permite ter um sono repousante ou um desequilíbrio e fricção entre os elementos que constituem o corpo). Provocação externa é quando a mente é perturbada (embora quem dorme possa não estar consciente disso) por fenômenos naturais como clima, vento, frio, chuva, barulho das folhas, janelas batendo, etc. A mente subconsciente reage a tais perturbações, criando imagens para ‘explicar’ o que acontece. A mente se acomoda à irritação de uma forma aparentemente racional de forma que o sonhador possa continuar a dormir sem perturbações. Esses sonhos também não têm importância e não precisam de interpretação.

III. Então há os sonhos proféticos. Esses são importantes. Raramente são experienciados e somente quando há um evento iminente que seja de grande relevância para o sonhador. O Buddhismo ensina que além do mundo tangível que podemos vivenciar, há devas que existem em outros planos ou alguns espíritos que estão presos a essa terra e são invisíveis a nós. Eles podem ser nossos parentes ou amigos que morreram e renasceram. Eles preservam relacionamentos mentais anteriores bem como seu apego a nós. Quando os buddhistas transferem méritos ao devas e aos mortos, eles os lembram e os convidam a compartilhar a felicidade adquirida através do mérito. Eles desenvolvem, assim, um relacionamento mental com os que morreram. Os devas, por sua vez, ficam contentes e se mantêm observando a nós, indicando algo nos sonhos quando temos que enfrentar alguns grandes problemas, tentando nos proteger do dano.

Assim, quando há algo importante que está para acontecer em nossas vidas eles ativam certas energias mentais em nossas mentes que são vistas como sonhos. Esses sonhos podem prevenir sobre um perigo iminente ou mesmo nos preparar para uma boa nova súbita. Essas mensagens são dadas em termos simbólicos (como nos negativos de fotos) e têm de ser interpretadas de maneira habilidosa e inteligente. Infelizmente pessoas demais confundem os dois primeiros tipos de sonhos com esse e acabam perdendo tempo e dinheiro valiosos consultando falsos médiuns e interpretadores de sonhos. O Buddha estava consciente de que isso poderia ser explorado para o ganho pessoal e, portanto, preveniu os monges contra prática de adivinho, astrologia e interpretação de sonhos em nome do Buddhismo.

4. Finalmente, nossa mente é o depósito de todas as energias kammicas acumuladas no passado. Algumas vezes, quando um kamma está para amadurecer (ou seja, quando a ação que fizemos em uma vida prévia ou no começo de nossa vida, está prestes a passar por sua reação) a mente que está em descanso durante o sono pode disparar uma ‘imagem’ do que está para acontecer. Aqui também, a ação iminente tem que ser de grande importância e deve estar tão fortemente carregada para que a mente ‘libera’ a energia extra na forma de sonho vívido. Tais sonhos ocorrem apenas muito raramente e somente para certas pessoas com um tipo especial de estrutura mental. O sinal do efeito de certos kammas também aparece em nossas mentes no último momento quando estamos prestes a partir desse mundo.

Sonhos podem ocorrer quando dois seres humanos vivos enviam fortes mensagens telepáticas mentais um para o outro. Quando uma pessoa tem um intenso desejo de se comunicar com a outra, ela se concentra fortemente na mensagem e na pessoa com quem deseja se comunicar. A mente está em repouso é um estado ideal para receber tais mensagens, as quais são vistas como sonhos. Usualmente esses sonhos aparecem somente em momentos intensos porque a mente humana não é forte o suficiente para sustentar tais mensagens por um longo período de tempo.

Todos os seres mundanos são sonhadores, e percebem como permanente o que é essencialmente impermanente. Não vêem que a juventude termina em velhice, a beleza em feiúra, a saúde em doença, e a própria vida em morte. Nesse mundo de sonho, o que é verdadeiramente sem substância é visto como realidade. Sonhar durante o sono é somente outra dimensão do mundo-sonho. Os únicos que estão acordados são os Buddhas e os Arahants, pois eles viram a realidade.

Os Buddhas e os Arahants nunca sonham. Os primeiros três tipos de sonho não podem ocorrer em suas mentes, porque suas mentes foram permanentemente ‘acalmadas’ e não podem ser ativadas para sonhar. O último tipo de sonho não pode acontecer a eles porque erradicaram toda a energia do desejo completamente, e não há mais energia ‘residual’ de ansiedade ou de desejo insatisfeito para ativar a mente em produzir sonhos. O Buddha é também conhecido como o Desperto porque Sua forma de relaxar o corpo físico não é da forma como dormimos, a qual resulta em sonhos. Grandes artistas e pensadores, como o alemão Goethe, freqüentemente disseram que conseguem suas melhores inspirações através dos sonhos. Isso pode ser porque quando suas mentes estão desligadas dos cinco sentidos durante o sono, eles produzem pensamentos claros, os quais são criativos num alto grau. Woodsworth queria dizer a mesma coisa quando disse que boa poesia resulta de ‘poderosas emoções lembradas na tranqüilidade’.

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12 comentários em “os Sonhos e seus Significados

    dunyazade disse:
    15 setembro, 2006 às 9:02 pm

    Isto é muito, muito interessante.

    lucienne disse:
    21 setembro, 2006 às 12:44 pm

    Olá por que as vezes sonhamos por partes, como se fossem historias? sonhamos e acordamos e ao dormirmos dinovo temos então o mesmo sonho. ?igual identico. ou as vezes parecido mas é como se fosse a continuação do primeiro. tipo a segunda parte como se fosse uma novela ou algo do tipo?

    Dhanapala respondido:
    25 setembro, 2006 às 9:12 am

    Lucienne, uma possível explicação é de que a mente que sonha ‘navega’ em uma ‘onda’ que é interrompida pela mente de vigília. Quando a mente de vigília cessa, a consciência se reconecta, por vezes, ao momento anterior da mente subconsciente onde ocorre o sonho. Essa é uma explicação super simplificada de uma versão mais elaborada da psicologia profunda buddhista.

    dhanapala respondido:
    14 novembro, 2006 às 12:34 pm

    Amigos, o autor dá uma explicação clara sobre os vários tipos de sonhos na filosofia buddhista. Entretanto, várias pessoas insistem em se comportar em seus comentários como se o autor, já falecido, pudesse se manifestar pelos canais cibernéticos e dar interpretações sobre os sonhos individuais de cada um que escreve. Fica o esclarecimento: o site não tem o poder de ‘baixar’ o autor falecido, e mesmo que fosse possível, monges buddhistas não lêem sorte nem interpretam sonhos, ok? 🙂

    Qualquer mensagem pedindo interpretação de sonhos será eliminada.

    merlina disse:
    27 dezembro, 2006 às 10:21 am

    finalmente que haja alguem que concorde comigo
    em dizer que a vida na passa de um sonho,
    e que quando morremos, e quando voltamos a nascer e a sonhar….

    francisco carlos amaral disse:
    25 abril, 2007 às 1:00 pm

    quando dormimod e sonhamos que somos atacados por um tigre,ficamos perturbados e quando acordamos setimos alivio em ver que era apenas um sonho.
    Da mesma forma a literatura vedica nos ensina que a vida material e seus aparatos e sofrimentos de velhice,doenca,morte,luta pela sobrevivencia nao passa de sonho da alma condicionada.quando despertamos para a nossa realidade espiritual e eterna sentimos alivio e assim a identificacao com o mundo vai seno eliminada.phalguna dasa

    Flávio Maia disse:
    17 janeiro, 2008 às 9:56 am

    “Os Buddhas e os Arahants nunca sonham”.

    Eu ainda sonho, mas estou praticando bastante para poder um dia não sonhar mais. 🙂

    Metta.

    Carol disse:
    13 março, 2008 às 1:44 pm

    mais se essa vida não passa de um sonho?
    como seria a outra vida,como vai ser quando acordarmos desse sonho?e os buddhistas acreditam em ‘O Fim do Mundo’?

    Marcio disse:
    1 fevereiro, 2009 às 10:00 pm

    Eu sonhei com Buddha…num lugar maravilhoso que eu jamais vi na vida. Tinha muita natureza e vários templos… Veio a palavra Kadi em minha mente…vi um tempo grandioso dourado e em cima da montanha estava a imagem de Buddha.

    Claudia Coutinho disse:
    14 março, 2010 às 2:09 pm

    Muito interessante essa matéria. Nunca me prendi a sonhos, mas, esta noite, sonhei com Buda chorando lágrimas que pareciam gotas de prata. Achei, digamos, diferente. Se tiver algum significado, gostaria de saber.

    Eduardo disse:
    19 outubro, 2010 às 11:56 pm

    Significa que você se impressionou com a história e montou a imagem enquanto descarregava tua emoção para ser arquivada no inconsciente. Mas por apenas 100 reais que você deposite em minha conta, eu posso inventar uma interpretação linda, que vai te emocionar muito, tipo o próprio Buda, lá no Nirvana, se encantou com tua fé, e apareceu conscientemente em teu sonho… Ops! Você nem pagou meu cachê e eu já estou aí, gastando minha criatividade!

    kananda disse:
    25 junho, 2011 às 12:50 am

    ano passado eu vivia tendo sonhos pertubados…. foi quando comecei me preucupa e descobri q eles foram como se fossem aviso do que estava acontecendo q eu nao conseguia enchergar…
    como saber diiferenciar os dois primeiros tios de sonhos com o terceiro tipo??

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