Sexo e Religião

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A parte inferior em nós é ainda animal” (Gandhi)

O impulso sexual é a força mais dinâmica na natureza humana. Ele é tão potente que algum tipo de autocontrole é necessário, mesmo na existência ordinária. No caso do aspirante espiritual, que deseja ter um completo controle sobre sua mente, uma quantidade ainda maior de autodisciplina é necessária. Tal força poderosa no caráter humano pode ser subjugada somente quando o aspirante controla seus pensamentos e pratica a concentração. A conservação da força sexual ajuda a desenvolver esta força. Pois se ele controlar a força sexual, ele terá mais controle sobre todo seu ser e sobre suas menores emoções.

O celibato é um dos requisitos para aqueles que desejam expandir seu desenvolvimento espiritual até a perfeição. Isso, entretanto, não é compulsório para todas as pessoas a fim de praticar o Buddhismo. O conselho do Buddha é o de que observar o celibato é mais afim para alguém que deseja cultivar suas conquistas espirituais. Para um leigo comum buddhista, o preceito é de se abster da má-conduta sexual. Embora a perversão da força sexual não esteja sob a mesma categoria, a pessoa pervertida invariavelmente sofre as más reações, tanto física quanto mentalmente, ou ambas.

Há uma necessidade para leigos buddhistas exercitarem algum nível de controle com respeito à força sexual. O impulso sexual do homem deve ser controlado adequadamente pois, do contrário, o homem se comportará pior do que um animal quando intoxicado pela luxúria. Considerem o comportamento sexual do que chamamos de ‘animal inferior’. O que, de fato, é freqüentemente ‘inferior’ – o animal ou o homem? Qual age de maneira normal e regular com relação ao comportamento sexual? E qual se dispersa de formas irregulares e perversas? Freqüentemente é o animal a criatura superior, e o homem a inferior. E por que isso? Simplesmente porque o homem – que se usasse corretamente sua capacidade mental teria a maestria de seus impulsos sexuais – usa, de fato, seus poderes mentais de uma forma tão deplorável que se torna um escravo desses impulsos. Assim, o homem pode, às vezes, ser considerado inferior a um animal.

Nossos ancestrais acalmavam este impulso sexual; eles sabiam que ele era forte o suficiente para não dar um encorajamento extra. Mas hoje o incentivamos com milhares de formas para incitar, propagandas sugestivas, enfatizando e exibindo; e armamos a força sexual com a doutrina de que inibi-la é algo perigoso e pode até mesmo causar desordens mentais.

Ainda assim, a inibição – o controle do impulso – é o primeiro princípio de qualquer civilização. Em nossa civilização moderna, poluímos a atmosfera sexual que nos cerca – tão grande é a insaciedade da mente e do corpo por gratificação sexual.

Um resultado dessa exploração sexual pelos incentivadores escondidos da sociedade moderna é de os jovens de hoje desenvolverem uma atitude em relação ao sexo que está se tornando um incômodo público. Uma garota inocente não tem liberdade de ir a qualquer lugar sem ser molestada. Por outro lado, as mulheres deveriam se vestir de tal maneira a não estimular a natureza animal que está escondida nos jovens.

O homem é o único animal que não tem períodos de natural inatividade sexual durante os quais o corpo pode restabelecer sua vitalidade. Infelizmente, a exploração comercial da natureza erótica no homem causou que o homem moderno seja exposto a uma avalanche incessante de estímulos sexuais vindos de todos os lados. Muitas das neuroses da vida atual provêm desta situação desequilibrada. Dos homens espera-se a monogamia, mas as mulheres são encorajadas de todas formas possíveis a serem atraentes, não apenas para o marido, mas para excitar em todos os homens a paixão que a sociedade lhes proíbe de satisfazer.

Muitas sociedades tentam forçar relacionamentos monogâmicos. Dessa forma, mesmo um homem com muitas falhas ainda pode ser um homem moral, ou seja, pode ser fiel à esposa permitida pela lei. O perigo aqui jaz no fato de que pessoas que sejam inteligentes o bastante para perceberem que tais regras são artificiais e não baseadas em quaisquer princípios transcendentais ou universalmente válidos, podem cair no erro de pensar o mesmo com relação a todas as outras leis éticas.

O sexo deveria ocupar seu devido lugar na vida humana normal; nem deve ser doentiamente reprimido, nem morbidamente exagerado. E deve estar sempre sob controle da vontade, como o pode ser quando considerado saudavelmente e colocado em sua perspectiva apropriada.

O sexo não deveria ser considerado como o mais importante ingrediente para a felicidade na vida de um casal. Aqueles que nisso exageram, podem se tornar escravos do sexo, o que no fim arruinará o amor e a consideração humana no casamento. Como em tudo, é preciso cultivar a temperança e racionalidade nas demandas sexuais, levando em consideração os sentimentos íntimos e o temperamento um do outro.

O casamento é um laço de parceria para a vida, estabelecido entre um homem e uma mulher. Paciência, tolerância e entendimento são as três principais qualidades que deveriam ser desenvolvidas e nutridas pelo casal. Enquanto o amor deveria ser o nó unindo o casal, as necessidades materiais para a sustentação de um lar feliz devem ser disponibilizados pelo companheiro para que o casal divida. A qualificação de uma boa parceria no casamento deve ser o ‘nós’, e não o ‘seu’ ou ‘meus’. Um bom casal deveria ‘abrir’ seu coração um para o outro e evitar a manutenção de ‘segredos’. Manter segredos para si pode levar à suspeita, e esta é o elemento que poderia destruir o amor em uma parceria. A suspeita nutre o ciúme, o ciúme cria a raiva, a raiva desenvolve o ódio, o ódio vira inimizade, e a inimizade pode causar grande sofrimento, incluindo o derramamento de sangue, o suicídio e mesmo o assassinato.

14 comentários em “Sexo e Religião

    Manoel Moura disse:
    1 outubro, 2007 às 8:55 pm

    Concordo em gênero, número e grau com seu texto.
    Nessa vida, o que me foi mais prejudicial foi o uso e abuso indevido de minha sexualidade.

    Há um bom tempo celibatário, percebo claramente o quanto perdí e quase nada ganhei.Nem é a questão de ganhos ou perdas; digo, identidade, moralidade, respeito.
    Bom ter encontrado o Zen ou o Zen me encontrou; talvez ainda estivesse no mesmo círculo vicioso se não houvesse o encontro.

    Ana disse:
    6 outubro, 2007 às 1:36 pm

    mui bom o texto,

    falar da sexualidade humana sadia,é sempre complexo,dificil…
    porisso muitos, na cultura ocidental não aprovaram Freud e seus postulados.É fato, sem
    o controle da sexualidade, não se constroi uma
    civilização. É só olhar em nosso entorno…

    Muito feliz, esse apontamento por um mestre
    theravadin…claro, simples, e com “sustânça.”

    ana

    Mário Pereira disse:
    20 outubro, 2007 às 11:35 pm

    Respeito e admiro o texto em apreço, mas discordo do celibato como meio de se conseguir evolução espiritual. Acredito que a repressão sexual é tão nociva ao ser humano, quanto o desregramento a que as pessoas possam se entregar.O celibato a meu ver, será um consequeência da realização do amor e da descoberta da verdade. O sexo é uma força muito importante no caminho da realização do Ser. É, na verdade a expressão do amor, no plano material em que vivemos e nesse estágio deverá ser vivenciado, com expontaneidade responsabilidade e alegria, com o mesmo respeito com se faz uma oração. Destarte, ele será um dos maiores impulsinadores do ser humano para Deus.

    J. Vilsemar disse:
    23 outubro, 2007 às 12:30 pm

    – Olá! Tudo bom?
    – O ser humano tem o livre arbítrio, mas no entanto a maioria não utiliza com sabedoria essa dádiva. O controle da natalidade é essencial para a preservação do próprio planeta. Muitas religiões mais prejudicam que auxiliam e no passado tivemos milhares de pessoas queimadas vivas nas fogueiras santas por discordarem de certas imposições religiosas e ainda hoje insistem em certos dogmas falsos. Tudo em nome de Deus! Basta olhar o pesadelo do aumento populacional em que as cidades do mundo estão se tornando. É como um câncer que destrói tudo aos poucos. O que tem que ser reprimido é o aumento populacional e não o sexo. Ele deve de ser utilizado com sabedoria e não de maneira promíscua compactuado com drogas, pois o ato sexual é pura energia que não serve apenas para procriar. O Budismo, outros centros filosóficos e científicos vêem alertando para o descalabro do aumento populacional.Todo o conhecimento deve de ser utilizado com sabedoria e o sexo não fica para trás. O homem deve de conhecer a si mesmo. Controlar os seus impulsos sexuais, os seus pensamentos, pois isto gera conseqüências na plano material. Quando houver o controle do pensamento e o conhecimento usado com sabedoria estaremos estaremos trilhando o caminho do meio. Será que ainda temos tempo para isto?

    J. Vilsemar disse:
    23 outubro, 2007 às 12:34 pm

    – Tinha me esquecido!
    – SEMANA ILUMINADA PARA VOCÊ!

    Leandro Uchimura disse:
    9 dezembro, 2007 às 7:10 pm

    Acredito que o celibato seja uma necessidade somente aos seres desejosos em acompanhar a peregrinação de Buda na transmissão do Dharma ao maior numero de pessoas. Esses, os monges, escolheram seguir o Iluminado e portanto abandonaram suas vidas e desejos(incluindo o sexual)objetivando aprender mais ao lado do Mestre enquanto este estava vivo. Diferente do povo leigo que escutava o Iluminado apenas quando este passava próximo a suas vilas, mas não abandonamdo suas esposas e filhos.
    Acredito ainda que implicou-se na época um problema de ordem prática, haviam inúmeros monges peregrinos interagindo com inúmeros outros seres não celibatários, ou seja, mulheres solteiras ou até casadas, e que poderiam acarretar num romance, numa gravidez, num adultério, assassinato ou no menor caso a difamação do monge envolvido. E devido a essas possibilidades, acredito eu , que Buda teria imposto o voto celibatário aos seus seguidores convíctos, os monges.

    Penso apenas na ordem prática das coisas.

    Eu tenho a mesma opinião sobre Cristo e seus seguidores.

    eliane disse:
    4 janeiro, 2008 às 9:20 am

    Não é só “A parte inferior em nós é ainda animal”, SOMOS ANIMAIS por inteiro. Alguns tentando melhorar, outros nem tanto… mas continuamos sendo animais.

    Léo disse:
    10 março, 2008 às 1:22 am

    “A vida não é feita de prazeres, mas de responsabilidades”.

    walter silva disse:
    28 abril, 2008 às 11:20 pm

    Concordo que o desejo deve ser controlado,sim.Controlado,não reprimido.É uma grande tolice argumentar a respeito de sexo nesses moldes judaico-cristãos,acreditando que o sexo para ser ‘humano’ e ‘civilizado’ deva ser justificado pela causa ‘santa’ da reprodução.Que bobagem…Meu caro,o prazer está na vida,assim como a dor.Sobre casamento,quanta obviedade essa sua,de socorrer-se mais uma vez do tolo conceito cristão nas relações de gênero!ignorando os casais gays tal qual o cego de nascença ignora o dia e a noite…Deixe-me ensinar-lhe um segredo:mesmo os animais fazem sexo com outras intenções para além do mero instinto reprodutivo,viu?parece inacreditável,mas ainda tem gente que desconhece que o sexo,entre outras funções,é um veículo de troca de afetividade,de vários níveis e possibilidades.

    Eliane disse:
    4 maio, 2008 às 12:25 pm

    Sempre o macho fez sexo, sem ao menos se preocupar se sexo é instinto reprodutivo, ou se é um “veículo” de troca de afetividade… vai ver que o macho nem faz sexo com intenção de nada; talvez simplesmente por uma causa que ele mesmo desconhece(estando excitado, ereto e mais coisas em seu favor)…?!

    Elayne Rejanne N. Souza disse:
    29 dezembro, 2008 às 7:00 pm

    Foi o próprio Buda quem nos disse que sua Doutrina tinha um só sabor “o da libertação
    ‘…e não nos proibiu nada, porém é através da meditação que chegamos a conclusão de que sexo não é tudo na vida terrena, faz parte da saúde do corpo, é como remédio: se demasiado faz mal,para tudo na vida tem que ter disciplina. Porém,se você abraça a vida religiosa não tem porquê dar tanto valor a vida sexual.

    Luan disse:
    4 abril, 2012 às 6:58 pm

    Ótimo texto.

    Realmente o sexo humano é muito especial,visto as potências energéticas-mentais existentes no ato,que se bem utilizado traz muitos benefícios tanto ao homem quanto a mulher,assim como o celibato traz muitos benefícios,pois a energia que seria muito provavelmente má utilizada num ato sexual mundano,pode ser utilizada eficientemente para um benéfico auto desenvolvimento, em diversos níveis e que acaba por beneficiar todos os seres á nossa volta.
    Acredito que o sexo deva ser melhor conduzido,porém são necessárias instruções corretas,visão correta,enfim, uma mente bem purificada e livre de egoísmos.
    No meu ponto de vista o sexo deveria ser evitado se empregado com fins egoístas,já que é uma força que se mal empregada causa sérios danos á mente.
    Realmente é um problema sério quando se é escravizado pelo sexo,assim como por qualquer tipo de desejo.
    Se existe um ótimo treinamento para se obter o auto-controle,com certeza aprender a controlar a energia-impulso sexual é um deles.

    ROBERTO REZENDE disse:
    22 abril, 2012 às 4:21 pm

    Controle, controle, controle…

    Julio Siqueira disse:
    18 abril, 2015 às 6:42 pm

    Como ficam os homossexuais neste contexto? É julgado como comportamento sadio ou doentio?

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