Anatta: O Ensinamento da Não-Alma

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O Buddha contrapôs toda teoria de uma alma e especulação sobre uma alma com Sua doutrina de Anatta. Anatta tem sido traduzido sob vários rótulos: não-Alma, não-Self, não-Ego.

Para entender a doutrina de Anatta, é preciso entender que a teoria de uma alma eterna – ‘eu tenho uma alma’ – e a teoria materialista – ‘eu não tenho alma’ – ambas são obstáculos para a autorealização ou salvação. Elas surgem do conceito enganado do ‘EU SOU’. Assim, para compreender a doutrina de Anatta, não se pode apegar a nenhuma opinião ou crença em teorias da alma; ao contrário, deve-se tentar ver as coisas objetivamente como são e sem quaisquer projeções mentais. É preciso aprender a ver o assim chamado ‘eu’, alma ou Self como realmente é: meramente uma combinação de forças mutantes. Isso requer alguma explicação analítica.

O Buddha ensinou que aquilo que concebemos como algo eterno dentro de nós, é meramente uma combinação de agregados físicos e mentais, ou forças (pancakkhandha) constituídos de corpo ou matéria (rupakkhandha), sensações (vedanakkhandha), percepções (saññakkhandha), formações mentais (sankharakkhandha) e consciência (viññanakkhandha). Essas forças trabalham juntas num fluxo de mudança momentânea; nunca permanecem iguais por dois momentos consecutivos. São as forças constitutivas da vida psicofísica. Quando o Buddha analisou a vida psicofísica, Ele descobriu somente esses cinco agregados ou forças. Não encontrou nenhuma alma eterna. Entretanto, muitas pessoas ainda carregam a idéia errônea de que a alma é a consciência. O Buddha declarou em termos inequívocos que a consciência é dependente da matéria, sensação, percepção e formações mentais e que não pode existir independentemente destes.

8 comentários em “Anatta: O Ensinamento da Não-Alma

    Índice « No Que Os Buddhistas Acreditam disse:
    28 setembro, 2010 às 10:30 am

    […] Anatta: O Ensinamento da Não-Alma […]

    Gilson disse:
    8 maio, 2011 às 2:12 pm

    Eu não acredito que o Buddha tivesse negado o Atman das Escrituras Védicas. A idéia do “Eu Sou” está presente em todas as Tradições, desde o Hinduísmo ao Cristianismo Esotérico. A meu ver o “Eu” que o Buddha afirma ser ilusório é a Personalidade Terrestre. Eu considero horrível, em termos de Espiritualidade, trabalhar com negações como “não-eu” ou “não-alma” ou “não-mente”.

    William disse:
    18 abril, 2013 às 8:32 am

    Tente entender esta doutrina com mente aberta, Gilson! Todo este sofrimento por ‘EU quero me tornar’, ‘como se atreve a ofender o meu EU?’, ‘EU fui traído!’, ‘EU sou mais do que isso’, ‘EU sou feliz’… todas estas frases exemplificam sofrimento, explícito ou não, e em tudo há ‘eu’. É meio complicado explicar o Budismo por palavras, mas tente abrir a mente por alguns instantes e se dê o presente de pôr, pelo menos por algum tempo, a prática da meditação. Você vai ver que seus pensamentos surgem por si mesmos e que você pode se apegar ou ‘desidentificar’ com eles mas que eles não são ‘você’. No final das contas, qualquer coisa que assumirmos como ‘eu’, ‘meu’, traz sofrimento.
    E não considere o Budismo extremamente Espiritual. Buddha aconselhou o caminho do meio e mesmo seus ensinamentos combinam, parcialmente, tanto com a ciência quanto com a espiritualidade.

    William disse:
    18 abril, 2013 às 8:34 am

    “Olhe 10 anos atrás, 1 ano atrás, meses atrás… Olhe o ontem, o momento que acabou de passar! Você não para de mudar. Então quem, de fato, é você? Se não somos fixos, mas impermanentes, quem somos nós?”

    Ozeas Ferreira disse:
    16 outubro, 2013 às 11:25 pm

    Se não sou os pensamentos tudo bem, mas quem é este que observa os pensamentos e diz: Olha, este não sou eu? A mente nega a mente através da própria mente? Até pra negar o Eu absoluto ele usa este “Eu”. Até pra constar a existência, ele usa este “Eu”. Pra dizer que a matéria antecede o pensamento, ele está usando o “Eu”. Pra dizer, alcancei o nirvana, ele usa o “Eu”. Que existe os agregados [memórias pessoais que se desfazem com a morte, isso eu sei] Mas quem é este observador neutro que observa os pensamentos mas não é os pensamentos? Que diz Existo? Que nunca soube da morte e nunca saberá, porque é puro existir? Que é essa mente pura que se identifica com os agregados?

    José P. S. Filho disse:
    14 novembro, 2013 às 10:47 am

    A negação do Eu é também a negação da Causa Primeira do Universo. Toda a Ciência, Filosofia e Religião estão sustentadas pela razão lógica e demonstrável da cadeia de causa e efeito que está em tudo no Universo. Se não houver um Eu, ou como disse Aristóteles, um “motor imóvel”, “causa sem causa”, ou como diz Spinoza, uma “Substância”, de onde, então, provêm todas as coisas do Universo? Do acaso? Também concordo com os amigos Gilson e Ozeas no que compete à defesa da existência de um Eu Puro e não um eu conhecido como personalidade terrestre, pois se pararmos realmente para pensar, esta não existe.

    Ludwig disse:
    15 junho, 2014 às 8:29 pm

    Quando falamos Eu, deveríamos na verdade dizer Nós. Por que esse Eu- Nós ele é todo abrangente, onipotente e abarca toda a Vida. Todos nós sentimos dentro de si a íntima chama de pertencer a todo o Universo e não apenas a um corpo físico específico, nascido em tal família, em tal país e em tal época.

    FERNANDO SALVINO disse:
    17 outubro, 2016 às 10:27 pm

    A doutrina do não-eu não é invenção de Buda. Remonta ao Livro das Mutações, ao Taoismo chinês, ao Tao te King de Lao Tzu, muito antes de Buda. A concepção de impermanência ou mutação é a essência do I Ching. Porém sinólogos já disseram que o “I” além de significar mutação significa não-mutação. A única coisa que nunca muda é a mutação! Assim, eu e você, apesar de estarmos em eterna mutação, ainda sim somos sempre os mesmos dentro da mudança. Dizer que não somos os mesmos da infância? Eu sou o mesmo, apesar de aparentemente ter mudado. O que muda não é o eu real. O eu real não existe, por isso é o não-eu. Quem eu realmente sou não pertence ao campo da mutação, mas sim do que permanece o mesmo dentro da mutação. É neste sentido que Atman é o eu real e portanto, o próprio não-eu (o não-“ego”). O eu real está além do fóton, da luz, da observação direta. O eu real não existe objetivamente, localmente. É isso que significa Anatta. O eu que consideramos existir objetivamente, materialmente, como “algo”, como “coisa” distinta de outra “coisa” não existe. O eu real ou quem realmente somos não existe localmente, o eu não é. E daí vem aparentes paradoxos, como por exemplo: o que existe não é. O que é não existe. E como poderia o eu reencarnar se o eu real não se localiza objetivamente? A resposta para isto é: não é o eu real que reencarna, mas um outro agregado, chamado corpo psi, psicossoma ou corpo astral. As evidências em EQM, OOBE, mediunismo e tantos outros fenômenos parapsiquicos vem evidenciando que existe um outro agregado tão organizado como o corpo físico que é capaz de expressar o eu real sem que no entanto seja o próprio. Este segundo corpo é o que reencarna e desencarna, e não eu. O eu não reencarna. E diante disso, sendo o eu real não localizável objetivamente (“o eu não é”), não existindo, o que é o eu real? É justamente o que permanece o mesmo apesar da mutação. É o que não é sujeito à mutação. O que é sujeito à mutação são as expressões do eu real (atman, não-eu) e não o eu propriamente dito. A memória mesma é não-local e não-cerebral… E ainda sim a consciência, que é o eu percebendo-se como eu (mesmo que sem pensamentos), pode inteiramente manter-se lúcida totalmente fora do cérebro e do corpo físico, o que evidencia que o eu mesmo que seja condicionado, não é o corpo que o sustenta nesta dimensão… O taoismo vai chamar de wu-wei (não-ação).. wu-ji… tai-ji… O assunto é profundo.. Eu desenvolvo alguns destes conceitos e exponho algumas experiências que passei em meu espaço: http://www.revistaconsciencia.org. O eu e o não-eu estão coexistindo por enquanto! 🙂

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