Capítulo 09

Como Salvar a Si Mesmo – 3

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Olhando esse problema sobre outro ângulo, podemos considerar uma das mais antigas histórias contadas para mostrar como o Buddha ainda por se tornar tomou a decisão inicial para o esforço pela Iluminação. Muitos renascimentos antes de o Buddha nascer como Siddharta, ele nasceu como um homem comum.

Um dia, enquanto viajava em um barco com sua mãe, surgiu uma grande tempestade e emborcou o barco, jogando seus ocupantes no mar raivoso. Sem nenhum pensamento por sua segurança pessoal, o Buddha ainda por se tornar carregou sua mãe nas costas e lutou para nadar até a terra seca. Mas a extensão de água à frente era tão grande que ele não sabia a melhor rota para a segurança. Enquanto nesse dilema, não sabendo para qual direção virar, sua bravura foi percebida por um dos devas. Esse deva não podia vir ajudá-lo fisicamente, mas era capaz de fazer o Buddha ainda por se tornar conhecer a melhor rota a ser tomada. O jovem ouviu o deva e ambos, ele e sua mãe, foram salvos. Depois de sua mãe estar salva, ele refletiu sobre quanta felicidade ele conquistou ao salvar um único ser. Quão maior seria a felicidade se, aperfeiçoando a si mesmo, pudesse salvar todos os seres sencientes? Lá, então, ele tomou a firme decisão de, vida após vida, cultivar sua vida até atingir a Iluminação.

Essa história ilustra o fato de que os buddhistas podem e buscam a ajuda dos devas em suas vidas diárias. Um deva é um ser que por ter adquirido grande mérito nasce com o poder de ajudar outros seres. Mas esse poder é limitado às coisas materiais e físicas. Em nossa existência diária podemos buscar a ajuda dos devas (quando a má-fortuna sobrevém, quando precisamos ser confortados, quando estamos doentes ou com medo, e assim por diante).

O fato de procurarmos a ajuda desses devas significa que ainda estamos atados ao mundo material. Precisamos aceitar o fato de que, por nascer, estamos sujeitos aos desejos e às necessidades físicas. E não é errado satisfazer essas necessidades numa escala limitada. Quando o Buddha propôs o Caminho do Meio, Ele disse que não deveríamos nem nos deleitar na luxúria nem negar completamente a nós mesmos nas necessidades básicas da vida.

Entretanto, não devemos parar aí. Enquanto que aceitamos as condições de nosso nascimento, devemos também fazer todo o esforço, seguindo o Nobre Caminho Óctuplo, para alcançar um nível de desenvolvimento onde percebemos que o apego ao mundo material cria somente dor e pesar.

À medida que desenvolvemos nossa compreensão durante incontáveis nascimentos, nos apegamos menos e menos aos prazeres dos sentidos. É neste estágio em que nos tornamos realmente autodependentes. Neste estágio os devas não podem mais nos ajudar, porque não estamos mais procurando satisfazer nossas necessidades materiais.

Os buddhistas que realmente entendem a natureza transitória do mundo praticam o desapego pelos bens materiais. Como não estão indevidamente apegados a eles, são capazes de partilhar esses bens livremente com aqueles mais desafortunados do que eles – eles praticam a generosidade. Dessa forma, novamente, os buddhistas contribuem para o bem-estar de outros.

Quando o Buddha atingiu a Iluminação como resultado de Seus próprios esforços, Ele não guardou egoisticamente esse conhecimento para Si mesmo. Na verdade, após Sua Iluminação Suprema não havia nada que precisasse para Si – mas Sua Compaixão o moveu para mostrar para os outros o Caminho que descobriu. Ele passou não menos do que quarenta e cinco anos compartilhando Seu conhecimento não somente com os homens e mulheres, mas mesmo com os devas.

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Como Salvar a Si Mesmo – 4

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Frequentemente é dito que o Buddha ajudou os devotos que estavam em dificuldades. Mas ele o fez, não através da execução de milagres, tais como restaurar um morto para a vida e assim por diante, mas através de Seus atos de sabedoria e compaixão que ajudaram tais pessoas a entender a realidade da existência.

Certa vez, uma mulher chamada Kisa Gotami foi procurar a ajuda do Buddha para que ele restaurasse a vida do filho que tinha morrido. Sabendo que Ele não conseguiria conversar racionalmente com ela, tamanha a perturbação e pesar que sofria, o Buddha disse a ela que deveria primeiro obter um punhado de sementes de mostarda de uma pessoa que nunca houvesse perdido uma pessoa querida através da morte. A mulher perturbada correu de casa em casa e, apesar de que todos estavam inclinados a dar-lhe as sementes de mostarda, nenhum poderia honestamente dizer que nunca haviam perdido um ente querido através da morte. Vagarosamente, Kisa Gotami veio a perceber que a morte é uma ocorrência natural a ser experienciada por qualquer ser que nasceu. Preenchida por essa compreensão, ela retornou ao Buddha e agradeceu a Ele por mostrar-lhe a verdade sobre a morte.

Agora, o ponto aqui é que o Buddha estava mais preocupado com a compreensão da mulher sobre a natureza da vida do que em dar a ela um alívio temporário restaurando a vida a seu filho – a criança teria crescido e ainda morreria. Com sua compreensão mais abrangente, Kisa Gotami não apenas foi capaz de fazer as pazes com o fenômeno da morte, mas também aprender sobre a causa do pesar através do apego. Ela foi capaz de perceber que o apego causa o sofrimento, que quando o apego é destruído, então, o sofrimento é também destruído.

Dessa forma, no Buddhismo, uma pessoa pode buscar a ajuda de agentes externos (como os devas) na busca da felicidade temporal, mas em estágios posteriores de desenvolvimento, quando cessa o apego às condições mundanas, começa o caminho na direção da renúncia e da iluminação e, nessa altura, é preciso andar com as próprias pernas. Quando se busca obter a libertação, quebrar o ciclo sem fim de nascimento e morte, conquistar a compreensão e a iluminação, isso só será possível pelo próprio esforço e poder concentrado da vontade. “Ninguém pode nos salvar, somente nós mesmos”.

O Buddhismo dá grande crédito ao homem. É a única religião que afirma que os seres humanos têm o poder para ajudar e libertar a si mesmos. Nos estágios posteriores de seu desenvolvimento, eles não estão à mercê de nenhuma força ou agente externos que devem constantemente agradar pela adoração ou oferecimento de sacrifício.