Capítulo 07

Compreensão – 2

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Quando as pessoas entendem a natureza da vida humana, então surgem algumas importantes compreensões. Elas percebem que ao contrário de uma rocha ou pedra, o ser humano possui o potencial inato para crescer em sabedoria, compaixão e atenção – e ser transformado por esse autodesenvolvimento e crescimento. Também entendem que não é fácil nascer como um ser humano, especialmente tendo a oportunidade de ouvir o Dhamma. Além disso, torna-se completamente claro de que a vida é impermanente e, portanto, devem se esforçar para praticar o Dhamma enquanto ainda estão numa posição de poderem agir. Percebem que a prática do Dhamma é um processo educativo de toda uma vida que capacita a realizar seus verdadeiros potenciais escondidos na mente pela ignorância e pela cobiça.

Baseadas nessas realizações e compreensão, tentarão assim estar mais conscientes sobre o quê e como pensam, falam e agem. As pessoas ponderarão se seus pensamentos, linguagem e ações são benéficos, feitos a partir da compaixão e têm bons efeitos para si mesmas e para os outros. Compreenderão o verdadeiro valor de andar no caminho que leva à completa autotransformação, caminho conhecido no Buddhismo como Nobre Caminho Óctuplo. Essa Via pode ajudar as pessoas a desenvolverem sua força moral (sila) pela contenção das ações negativas e pelo cultivo das qualidades positivas que conduzem ao crescimento pessoal, mental e espiritual. Além disso, contém muitas técnicas que podem aplicar para purificar seus pensamentos, expandir as possibilidades da mente e realizar uma completa mudança na direção de uma personalidade saudável. Tal prática de cultura mental (bhavana) pode ampliar e aprofundar a mente na direção de um melhor entendimento da natureza e características dos fenômenos, da vida e do universo. Em síntese, ela leva ao cultivo da sabedoria (panna). À medida que a sabedoria cresce, assim também crescerão amor, compaixão, bondade e alegria. E as pessoas terão uma consciência maior de todas as formas de vida e um melhor entendimento de seus próprios pensamentos, sentimentos e motivações.

No processo da autotransformação, as pessoas não mais aspirarão por um nascimento divino como seu objetivo último na vida. Almejarão muito mais alto e adotarão como modelo o próprio Buddha, o qual alcançou o ápice da perfeição humana e atingiu o inefável estado que chamamos de Iluminação ou Nibbana. É aqui que desenvolvemos uma confiança profunda na Tríplice Gema e adotamos o Buddha como nosso ideal espiritual. Iremos nos esforçar para erradicar a cobiça, desenvolver sabedoria e compaixão e completamente nos libertarmos do limites do Samsara.

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O Buddhismo para os seres humanos na sociedade

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Essa religião pode ser praticada tanto na sociedade como em reclusão

Algumas pessoas acreditam que o Buddhismo é um sistema tão etéreo e sublime que não seria possível de ser praticado por homens e mulheres comuns no mundo do trabalho do dia a dia. Elas pensam que é preciso se retirar para um mosteiro ou algum lugar quieto caso se deseje ser um verdadeiro buddhista.

Esse é um triste engano que vem de uma falta de entendimento sobre o modo de vida buddhista. As pessoas saltam para tais conclusões após terem lido ou ouvido casualmente algo sobre o Buddhismo. Alguns formam sua impressão sobre o Buddhismo depois de terem lido artigos ou livros que dão apenas uma visão parcial ou distorcida do Buddhismo. Os autores de tais artigos e livros têm apenas uma compreensão limitada do Ensinamento do Buddha. Seu Ensinamento não é dirigido somente para os monges nos mosteiros. O Ensinamento é destinado também para homens e mulheres comuns morando em casa com suas famílias. O Nobre Caminho Óctuplo é o modo buddhista de vida que se dirige a todas as pessoas. Esse modo de vida é oferecido para toda a humanidade sem qualquer distinção. Quando quatro aspectos da vida, a saber, vida familiar, vida dos negócios, vida social e vida espiritual são satisfatoriamente harmonizados, a felicidade duradoura é atingida.

A grande maioria das pessoas no mundo não pode se tornar monges ou se retirar para cavernas ou florestas. Não importaria quão nobre e puro o Buddhismo fosse, ele seria inútil para as massas se elas não pudessem segui-lo em suas vidas diárias no mundo moderno. Mas se você compreender o espírito do Buddhismo corretamente, certamente poderá segui-lo e praticá-lo enquanto vive a vida de uma pessoa comum.

O Buddhismo para os seres humanos na sociedade – 2

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Alguns podem achar mais fácil e conveniente praticar o Buddhismo morando num lugar remoto; em outras palavras, se separando da sociedade. Já outras pessoas podem achar que este tipo de reclusão entorpece e deprime todo seu ser, tanto física como mentalmente e que, portanto, pode não ser apropriado para o desenvolvimento de sua vida espiritual e intelectual.

A verdadeira renúncia não significa correr fisicamente para longe do mundo. Sariputta, o discípulo-chefe do Buddha, disse que um homem pode viver numa floresta se dedicando a práticas ascéticas, mas pode estar cheio de pensamentos impuros e ‘aflições’. Outro pode viver num vilarejo ou numa cidade, não praticar uma disciplina ascética, mas sua mente pode ser pura e livre de ‘aflições’. “Desses dois tipos”, disse Sariputta, “o que vive uma vida pura no vilarejo ou na cidade é definitivamente muito superior ao que vive na floresta” (Majjhima Nikaya).

A crença comum de que para seguir o Ensinamento do Buddha é preciso se retirar da vida familiar normal é um conceito errado. É realmente uma defesa inconsciente contra praticá-la. Há numerosas referências na literatura buddhista a homens e mulheres vivendo uma vida normal, vidas comuns em família, e que de forma bem sucedida praticaram aquilo que o Buddha ensinou, realizando o Nibbana. Vacchagotta, o Andarilho, perguntou certa vez diretamente ao Buddha se havia homens e mulheres laicos, levando uma vida em família, que seguiam Seu Ensinamento com sucesso e atingiram altos estados espirituais. O Buddha categoricamente afirmou que havia muitos laicos e laicas levando uma vida em família que tinham seguido Seu Ensinamento de forma bem sucedida e atingido altos estados espirituais.

Para algumas pessoas pode ser agradável viver uma vida retirada em um lugar quieto, longe do barulho e das perturbações. Mas é certamente mais corajoso e digno de louvor praticar o Buddhismo vivendo entre os seres amigos, ajudando-os e oferecendo serviço a eles. Pode ser útil em alguns casos uma pessoa viver retirada por um tempo a fim de desenvolver a mente e o caráter, como algo preliminar ao treinamento moral, espiritual e intelectual, e a fim de ser forte o suficiente para mais tarde vir a ajudar os outros. Mas se uma pessoa vive toda sua vida em solidão, pensando apenas em sua felicidade e salvação pessoal, sem se preocupar com seus companheiros, isso certamente não está de acordo completo com o Ensinamento do Buddha, o qual é baseado no amor, compaixão e serviço aos outros.

O Buddhismo para os seres humanos na sociedade – 3

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Alguém pode agora perguntar: ‘Se uma pessoa pode seguir o Buddhismo enquanto vive a vida de uma pessoa comum, porque a Sangha, a Ordem de monges, foi estabelecida pelo Buddha?’ A Ordem provê uma oportunidade para aqueles desejosos de dedicarem suas vidas não somente para seu próprio desenvolvimento espiritual e intelectual, mas também ao serviço de outros. Não se pode esperar que um leigo comum com uma família devote sua vida ao serviço de outros, enquanto que um monge ou monja, que não têm responsabilidades familiares ou quaisquer laços mundanos, está em uma posição de devotar sua vida ‘para o bem de muitos’ (Dr. Walpola Rahula).

E o que é esse ‘bem’ do qual muitos podem ser beneficiar? Monges e monjas não podem dar conforto material para um leigo, mas podem prover orientação espiritual para aqueles assolados por problemas mundanos, familiares e emocionais. Monges e monjas devotam suas vidas à busca de conhecimento do Dhamma tal como ensinado pelo Buddha. Eles explicam o Ensinamento de uma forma simplificada para os leigos sem conhecimento. E se o leigo é bem instruído, eles estão lá presentes para conversar sobre os aspectos mais profundos do ensinamento de forma que ambos os lados possam obter frutos intelectuais da discussão.

Em países buddhistas, a Sangha é grandemente responsável pela educação dos jovens. Como resultado de tal contribuição, os países buddhistas contam com uma população alfabetizada e bem versada nos valores espirituais. A Sangha também oferece conforto para aqueles que estão confusos e perturbados emocionalmente explicando como toda humanidade está sujeita a semelhantes distúrbios.

Por sua vez, é esperado do leigo que ele cuide do bem-estar material da Sangha, a qual não ganha um salário para se garantirem com alimento, abrigo, medicamento e roupas. Na prática buddhista comum é considerado meritório para um leigo contribuir para o bem-estar da Sangha, pois assim fazendo ele torna possível para a Sangha continuar a cuidar das necessidades espirituais do povo e desenvolver sua própria pureza mental.

O modo de vida buddhista para os laicos

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O Buddha considerava o bem-estar econômico como um requisito para o conforto humano, mas para uma vida feliz, pacífica e contente os requisitos são o desenvolvimento moral e espiritual

Um homem chamado Dighajanu visitou certa vez o Buddha e disse: ‘Venerável Senhor, somos laicos comuns, levando uma vida familiar com mulher e filhos. O Bem-Aventurado poderia nos ensinar algumas doutrinas condutivas à nossa felicidade nesse mundo e depois?

O Buddha ensinou que havia quatro tipos de coisas condutivas à felicidade humana neste mundo: (1) ele deveria ser hábil, eficiente, sincero e energético em qualquer profissão que se engaje, e deveria conhecê-la bem (utthana-sampada); (2) ele deveria proteger seu salário, que ele ganhou de forma justa, com o suor de sua testa (arakkha-sampada); (3) ele deveria ter bons amigos (kalyana-mittata) que lhe sejam fiéis, sábios, virtuosos, liberais e inteligentes, que lhe ajudarão ao longo do correto caminho contra o mal; (4) ele deveria gastar razoavelmente em proporção ao seu salário, nem em excesso nem pouco demais, ou seja, não deveria acumular sua riqueza com avareza nem deveria ser extravagante – em outra palavras, deveria viver dentro de seus próprios limites (sama jivikata).

Então, o Buddha expôs as quatro virtudes condutivas à felicidade do laico após esta vida: (1) Saddha: ele deveria ter fé e confiança nos valores morais, espirituais e intelectuais; (2) Sila: ele deveria se abster de destruir e prejudicar a vida, de roubar e enganar, do adultério, da falsidade e das bebidas intoxicantes; (3) Caga: ele deveria praticar a caridade, a generosidade, sem apego e desejo por sua riqueza; (4) Panna: ele deveria desenvolver a sabedoria que leva à completa destruição do sofrimento, para a realização do Nibbana.

Algumas vezes o Buddha até mesmo entrou em detalhes sobre economizar dinheiro e gastá-lo, como, por exemplo, quando ele disse ao jovem Sigala que ele deveria gastar um quarto de suas economias com suas necessidades diárias, investir metade em seus negócios e guardar um quarto para qualquer emergência.

O modo de vida buddhista para os laicos – 2

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Certa vez o Buddha disse a Anathapindika, o grande banqueiro (um dos Seus mais devotados discípulos leigos e que fundou para o celebrado mosteiro Jetavana em Savatthi), que um laico que leva uma vida familiar comum tem quatro tipos de felicidade. A primeira felicidade é desfrutar de segurança econômica ou riqueza suficiente adquirida por meios justos e corretos (atthi-sukha); a segunda é gastar tal riqueza liberalmente consigo próprio, sua família, seus amigos e parentes, e em ações meritórias (bhoga-sukha); a terceira é ser livre de dívidas (anana-sukha); a quarta felicidade é viver uma vida sem manchas e pura sem cometer o mal em pensamentos, palavras ou ações (anavajja-sukha).

É preciso notar aqui que as três primeiras são felicidades econômicas e materiais que não são tão nobres quanto a felicidade espiritual que surge de uma vida boa e sem faltas.

Dos poucos exemplos dados acima, podemos ver que o Buddha considerava o bem-estar econômico como um requisito para a felicidade humana, mas não reconheceu o progresso como real e verdadeiro se fosse somente material, desprovido de uma fundação espiritual e moral. Ao mesmo tempo em que encoraja o progresso material, o Buddhismo sempre coloca grande ênfase no desenvolvimento do caráter moral e espiritual para uma sociedade feliz, pacífica e contente.

Muitas pessoas pensam que para ser um bom buddhista alguém não deve ter absolutamente nenhuma relação com a vida material. Isso não é correto. O que o Buddha ensina é que ao mesmo tempo em que podemos desfrutar dos confortos materiais sem cair nos extremos, precisamos também desenvolver conscientemente os aspectos espirituais de nossas vidas. Ao mesmo tempo em que desfrutamos dos prazeres sensoriais enquanto laicos, não deveríamos nunca ser indevidamente apegados a eles a um nível que sejam um obstáculo ao nosso progresso espiritual. O Buddhismo enfatiza a necessidade de uma pessoa seguir o Caminho do Meio. O ensinamento do Buddha não é baseado na obliteração do mundo, mas na obliteração da ignorância e do desejo egoísta.