Capítulo 05

Mente e Matéria (nama-rupa)

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‘O que é mente? Não importa. O que é matéria? Não se preocupe’.

De acordo com o Buddhismo, a vida é uma combinação de mente (nama) e matéria (rupa). Mente consiste da combinação de sensações, percepções, atividades volitivas e consciência. Matéria consiste da combinação de quatro elementos: solidez, fluidez, movimento e calor.

A vida é a coexistência de mente e matéria. A decadência é a falta de coordenação entre mente e matéria. A morte é a separação de mente e matéria. O renascimento é a recombinação de mente e matéria. Após o passamento do corpo físico (matéria), as forças mentais (mente) se recombinam e assumem uma nova combinação em uma forma material diferente e condicionam outra existência.

A relação da mente com a matéria é como a relação de uma bateria com o motor de um carro. A bateria ajuda a iniciar o motor. O motor ajuda a carregar a bateria. A combinação ajuda a movimentar o carro. Da mesma maneira, a matéria ajuda a mente a funcionar e a mente ajuda a colocar a matéria em movimento.

O Buddhismo ensina que a vida não é apenas a propriedade da matéria e que o processo de vida continua ou flui como um resultado de causa e efeito. Os elementos mentais e materiais que compõem os seres sencientes, desde a ameba ao elefante, incluindo o homem, existiram previamente em outras formas.

Embora algumas pessoas mantenham a visão de que a vida se origina somente da matéria, os maiores cientistas aceitaram que a mente precede a matéria a fim de a vida se originar. No Buddhismo, esse conceito é chamado de ‘consciência de religação’.

Cada um de nós, no sentido último, é mente e matéria, um composto de fenômenos mentais e materiais, e nada mais. Fora dessas realidades que formam o composto nama-rupa, não há self ou alma. A parte mental da composição é o que experiencia um objeto. A parte material nada experiencia. Quando o corpo é danificado, não é o corpo que sente dor, mas o lado mental. Quando estamos famintos não é o estomago que sente fome, mas a mente. Entretanto, a mente não pode comer o alimento para aliviar a fome. A mente e seus fatores fazem o corpo digerir a comida. Assim, nem nama nem rupa têm poder eficiente isoladamente. Um depende do outro; um sustenta o outro. Mente e matéria surgem ambas devido a condições e perecem imediatamente, e isso acontece a todo momento de nossas vidas. Pelo estudo e experiência dessas realidades conquistaremos insights como: (1) o que somos realmente; (2) o que encontramos ao nosso redor; (3) Como e porque reagimos em relação ao que está dentro de nós e à nossa volta; e (4) o que deveríamos aspirar alcançar como um objetivo espiritual.

Obter insight quanto à natureza da vida psicofísica é perceber que a vida é uma ilusão, uma miragem ou uma bolha, um mero processo de se tornar e dissolver ou surgir e desaparecer. Seja o que for que exista, isso surge de causas e condições. Quando causas e condições cessam, a coisa cessa de existir.

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As Quatro Nobres Verdades

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Por que estamos aqui? Por que não somos felizes com nossas vidas? Qual é a causa de nossa insatisfação? Como podemos ver o fim da insatisfação e experienciar a paz eterna?

O Ensinamento do Buddha é baseado nas Quatro Nobres Verdades. Compreender essas Verdades é compreender e penetrar na verdadeira natureza da existência, incluindo o total conhecimento de si mesmo. Quando reconhecemos todos os fenômenos como sendo transitórios, sujeitos ao sofrimento e desprovidos de qualquer realidade essencial, ficaremos convencidos de que a verdadeira e duradoura felicidade não pode ser encontrada nas possessões materiais e aquisições mundanas, que a verdadeira felicidade deve ser buscada apenas através da pureza mental e do cultivo da sabedoria.

As Quatro Nobres Verdades são um importante aspecto do ensinamento do Buddha. O Buddha disse que é porque fracassamos em entender as Quatro Nobres Verdades que continuamos a girar no ciclo do nascimento e morte. Em seu primeiro sermão, o Dhammacakka Sutta, que o Buddha proferiu para os cinco monges no Parque das Gazelas em Sarnath, ele explicou as Quatro Nobres Verdades e o Caminho Óctuplo. Estas são as Quatro Nobres Verdades:

A Nobre Verdade sobre Dukkha
A Nobre Verdade sobre a Causa de Dukkha
A Nobre Verdade sobre o Fim de Dukkha
A Nobre Verdade sobre o Caminho que leva ao Fim de Dukkha

Há muitas maneiras de entender a palavra pali ‘dukkha’. Ela tem sido geralmente traduzida como ‘sofrimento’ ou ‘insatisfatoriedade’, mas esse termo, tal como usado nas Quatro Nobres Verdades, tem um significado mais profundo e amplo. Dukkha contém não apenas o significado ordinário de sofrimento, mas também inclui idéias mais profundas tais como imperfeição, dor, impermanência, desarmonia, desconforto, irritação ou consciência da incompletude e insuficiência. Dukkha inclui o sofrimento físico e mental: nascimento, decadência, doença, morte, estar unido ao desagradável, estar separado do agradável, não conseguir o que se deseja. Entretanto, muitas pessoas não compreendem que mesmo durante os momentos de alegria e felicidade, há dukkha por tais momentos serem todos estados impermanentes que irão passar quando as condições mudarem. Portanto, a verdade de dukkha abrange toda a existência, em nossa felicidade e pesar, em cada aspecto de nossas vidas. Tanto quanto vivermos, seremos profundamente sujeitos a essa verdade.

As Quatro Nobres Verdades – 2

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Algumas pessoas podem ter a impressão de que ver a vida em termos de dukkha é um tanto pessimista ou negativo. Essa não é uma maneira pessimista, mas realista. Se alguém padece de uma doença e se recusa a reconhecer o fato de que se está doente e, como resultado, recusa buscar um tratamento, não consideraremos tal atitude mental como sendo otimista, mas meramente como tola. Portanto, ao ser otimista ou pessimista, a pessoa não compreende realmente a natureza da vida e, assim, é incapaz de considerar os problemas da vida sob a perspectiva correta. As Quatro Nobres Verdades começam com o reconhecimento de dukkha e então procedem analisando sua causa e buscando sua cura. Se o Buddha tivesse parado na Verdade de Dukkha, então se poderia dizer que o Buddhismo identificou o problema, mas não ofereceu a cura; se fosse esse o caso, então a situação humana não teria esperança. Entretanto, não somente a Verdade de Dukkha é reconhecida, mas o Buddha procedeu analisando sua causa e o caminho da cura. Como pode o Buddhismo se considerado pessimista se a cura do problema é conhecida? De fato, este é um ensinamento repleto de esperança.

Além disso, ainda que dukkha seja uma nobre verdade, isso não significa que não haja felicidade, desfrute e prazer na vida. Existem, e o Buddha ensinou vários métodos a partir dos quais podemos obter mais felicidade em nossa vida diária. Entretanto, numa análise final, o fato permanece de que o prazer ou a felicidade que experienciamos na vida é impermanente. Podemos desfrutar de uma situação feliz, da boa companhia de alguém que amamos ou desfrutar da juventude e da saúde. Cedo ou tarde, quando esses estados sofrerem uma mudança, experienciaremos sofrimento. Dessa forma, ainda que haja todas as razões para nos sentirmos alegres quando experienciamos felicidade, não deveremos nos agarrar a tais estados felizes ou nos desviarmos e nos esquecermos de continuar nosso esforço no caminho da completa Libertação.

Se desejarmos nos curar do nosso sofrimento, precisaremos primeiramente identificar sua causa. De acordo com o Buddha, a ânsia ou desejo sedento (tanha ou raga) é a causa do sofrimento. Essa é a Segunda Nobre Verdade. Pessoas anseiam por experiências agradáveis, anseiam por coisas materiais, anseiam pela vida eterna e, quando desapontadas, anseiam pela morte eterna. Não estão apenas apegadas aos prazeres sensuais, riqueza e poder, mas também a idéias, visões, opiniões, conceitos, crenças. E o anseio está conectado com a ignorância, ou seja, não ver as coisas como realmente são ou fracassar em entender a realidade da experiência e da vida. Sob essa ilusão do Self e não compreendendo anatta (não-self), uma pessoa se apega a coisas que são impermanentes, mutáveis e perecíveis. O fracasso em satisfazer os próprios desejos através dessas coisas causa desapontamento e sofrimento.

O Perigo do Desejo Egoísta

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O desejo sedento é um fogo que queima em todos os seres: toda atividade é motivada pelo desejo. Isso abrange desde o simples desejo físico dos animais aos desejos complexos e frequentemente estimulados artificialmente do homem civilizado. Para satisfazer o desejo, os animais caçam uns aos outros, e os seres humanos brigam, matam, enganam, mentem e realizam várias formas de ações insalubres. O desejo sedento é uma poderosa força mental presente em todas as formas de vida, e é a principal causa dos males da vida. É essa ânsia sedenta que leva aos nascimentos repetidos no ciclo da existência.

Uma vez que tenhamos percebido a causa do sofrimento, estamos numa posição de colocar um fim nele. Assim, como colocar um fim no sofrimento? Eliminando-o na raíz pela remoção do desejo sedento presente na mente. Essa é a Terceira Nobre Verdade. Esse estado onde o desejo sedento cessa é conhecido como Nibbana (nirvana). A palavra Nirvana é composta de ‘ni’ e ‘vana’, significando o sair do desejo sedento ou o fim da ânsia. Esse é um estado que é livre do sofrimento e da roda dos nascimentos. Esse é um estado que não está sujeito às leis do nascimento, decadência e morte. Esse estado é tão sublime que nenhuma linguagem humana pode expressá-lo. Nibbana é Não Nascido, Não Originado, Não Criado, Não Formado. Se não houvesse um Não Nascido, um Não Originado, um Não Criado, um Não Formado, então o escape do mundo condicionado não seria possível.

Nibbana está além da lógica e da razão. Podemos nos engajar em grandes discussões especulativas sobre o Nibbana ou sobre a realidade última, mas esse não é o modo como realmente entendê-lo. Para compreender e realizar a verdade do Nibbana é necessário que trilhemos o Caminho Óctuplo e nos treinemos e purifiquemos com diligência e paciência. Por meio do desenvolvimento espiritual e da maturidade, seremos capazes de realizar a Terceira Nobre Verdade. Mas primeiro devemos começar com saddha, a confiança ou fé de que o Buddha é verdadeiramente competente para nos dirigir no caminho.

O Nobre Caminho Óctuplo é a Quarta Nobre Verdade, a qual leva ao Nibbana. É um modo de vida consistindo de oito fatores. Trilhando esse Caminho nos será possível ver um fim para o sofrimento. Porque o Buddhismo é um ensinamento lógico e consistente que abarca todos os aspectos da vida, esse nobre Caminho também serve como o mais refinado código possível para levar uma vida feliz. Sua prática traz benefícios a nós mesmos e aos outros, e não é um Caminho para ser praticado apenas por aqueles que se chamam buddhistas, mas por toda pessoa inteligente, independente de suas crenças religiosas.

O Nobre Caminho Óctuplo – O Caminho do Meio

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Este é o Caminho que leva a uma vida religiosa pura sem ir a extremos

Um aspecto notável do Ensinamento do Buddha é o Caminho Óctuplo, que deve ser adotado como um nobre modo de vida. Outro nome para o Caminho Óctuplo é o Caminho do Meio. O Buddha aconselhou Seus seguidores a seguirem tal Caminho a fim de evitar os extremos dos prazeres sensuais e da automortificação. O Caminho do Meio é um modo de vida correto que não defende a aceitação de decretos feitos por alguém fora de nós mesmos. Uma pessoa pratica o Caminho do Meio, guia para a conduta moral, não por medo de qualquer agente sobrenatural, mas por reconhecer o valor intrínseco em seguir tal ação. Ele ou ela escolhe esta disciplina auto-imposta com um objetivo definido em mente: a autopurificação.

O Caminho do Meio é um curso planejado de cultura e progresso internos. Uma pessoa pode ter um progresso real em retidão e insight seguindo esse Caminho, mesmo sem se engajar em adorações externas e rezas. De acordo com o Buddha, qualquer um que viva de acordo com o Dhamma será guiado e protegido por essa própria Lei universal. Quando uma pessoa vive de acordo com o Dhamma, ele ou ela viverá também em harmonia com a lei universal.

Todo buddhista é encorajado a moldar sua vida de acordo com o Nobre Caminho Óctuplo tal como ensinado pelo Buddha. Aquele que molda sua vida de acordo com esse nobre caminho de vida será livre das misérias e calamidades, tanto nessa vida como na próxima. Ele também será capaz de desenvolver a mente por meio da restrição em relação ao mal e observação da moralidade.

O Caminho Óctuplo pode ser comparado a um mapa de estrada. Assim como um viajante precisará de um mapa para chegar a um destino, nós todos precisamos do Caminho Óctuplo, o qual nos mostra como atingir o Nibbana, o objetivo final da vida humana. Para atingir o objetivo final, há três aspectos do Caminho Óctuplo a serem desenvolvidos pelo devoto. Ele deve desenvolver Sila (moralidade), Samadhi (Cultura Mental) e Pañña (Sabedoria). Ainda que esses três devam ser desenvolvidos simultaneamente, a intensidade de cada área deve ser praticada variadamente de acordo com o próprio desenvolvimento espiritual de cada um. Um devoto deve primeiro desenvolver sua moralidade, isto é, suas ações devem trazer o bem aos outros seres vivos. Isso ele faz aderindo fielmente aos preceitos de abstenção de matar, caluniar, roubar, ficar intoxicado ou inebriado pela paixão. À medida que desenvolve a moralidade, sua mente se tornará mais facilmente controlada, capacitando-o a desenvolver seus poderes de concentração. Finalmente, com o desenvolvimento da concentração, a sabedoria surgirá.

Desenvolvimento Gradual

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Com sua infinita sabedoria, o Buddha sabia que nem todos os humanos têm a mesma habilidade para atingir imediatamente a maturidade espiritual. Ele explicou, então, de uma maneira prática, o Nobre Caminho Óctuplo para o desenvolvimento gradual da vida espiritual. Ele sabia que nem todas as pessoas poderiam se tornar perfeitas em apenas uma vida. Ele dizia que sila, samadhi e panna, devem e podem ser desenvolvidos durante muitas vidas com esforço diligente. Esse Caminho finalmente levará ao atingimento da paz derradeira em que não há mais insatisfatoriedade.

Vida Correta

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O Caminho Óctuplo consiste dos seguintes oito fatores:

Sila (Moralidade) Linguagem correta | Ação correta | Modo de vida correto
Samadhi (Cultura Mental) Esforço correto | Vigilância correta | Concentração correta
Pañña (Sabedoria) Compreensão correta | Pensamentos corretos

O que é a Compreensão Correta? Ela é explicada como o possuir o conhecimento das Quatro Nobres Verdades. Em outras palavras, é o entendimento das coisas como realmente são. Compreensão Correta também significa que uma pessoa entende a natureza daquilo que é kamma saudável (méritos) e kamma não-saudável (deméritos) , e como eles são realizados via corpo, linguagem e mente. Entendendo o kamma, uma pessoa aprenderá a evitar o mal e fazer o bem, criando assim resultados favoráveis na vida. Quando uma pessoa tem a Compreensão Correta, ela também compreende as Três Características da Vida (todas as coisas compostas são impermanentes, sujeitas ao sofrimento e sem um eu) e a Lei da Originação Dependente. Uma pessoa com a Compreensão Correta é livre da ignorância, e devido à natureza de tal iluminação é capaz de remover as raízes do mal de sua mente e se libertar. O objetivo sublime da prática buddhista é desenvolver a mente a fim de atingir a Compreensão Correta sobre o eu, a vida e todos os fenômenos.

Quando uma pessoa tem a Compreensão Correta, ela também desenvolve o Pensamento Correto. Esse fator é por vezes conhecido como ‘Resolução Correta’, ‘Aspiração Correta’ e ‘Idéias Corretas’. Ele se refere ao estado mental que elimina as idéias ou noções errôneas e promove os outros fatores morais que levam ao Nibbana. Esse fator serve ao duplo propósito de eliminar os pensamentos maléficos e desenvolver os pensamentos puros. O Pensamento Correto é importante, pois são os pensamentos de uma pessoa que tanto purificam quanto mancham sua mente.

Há três aspectos do Pensamento Correto. Primeiro, uma pessoa deve manter uma atitude de distanciamento dos prazeres mundanos ao invés de ser egoisticamente apegada a eles. Deve ser altruísta e pensar no bem-estar dos outros. Segundo, ela deve manter a bondade amorosa, a boa vontade e a benevolência em mente, elementos que são o oposto do ódio, má-vontade ou aversão. Terceiro, ela deve agir com pensamentos de não-violência ou compaixão em relação a todos os seres, que são o oposto da crueldade e falta de consideração para com os outros. À medida que uma pessoa progride no caminho espiritual, seus pensamentos se tornarão mais benevolentes, inofensivos, altruístas e preenchidos de amor e compaixão.