Para se praticar a bondade amorosa é preciso também estar livre do egoísmo. Muito do amor nesse mundo é autocentrado, ou seja, é apenas amor por si mesmo ou para o benefício de si.

Não por causa do amor o marido é amado; mas o marido é amado pelo amor a si mesmo. Os filhos são amados por seus pais, não pelo amor aos filhos, mas pelo amor a si mesmos. Os deuses são amados, não pelo amor aos deuses, mas pelo amor a si mesmo. Não pelo amor qualquer um é amado, mas pelo amor a si mesmo eles são amados”.

O Buddha ensina um outro tipo de amor. De acordo com o Buddha, deveríamos aprender como praticar o amor desinteressado a fim de manter a verdadeira paz enquanto nos esforçamos por nossa própria salvação. Isso se chama amor altruísta: onde não é encontrado um eu que exerce o amor. Como o suicídio mata fisicamente, o egoísmo mata o progresso espiritual. A bondade amorosa no Buddhismo não é nem emocional nem egoísta. É a bondade amorosa que se irradia através de uma mente purificada após ter erradicado o ódio, o ciúmes, a crueldade, a inimizade e as aversões. De acordo com o Buddha, metta – a bondade amorosa – é o método mais efetivo para manter a pureza da mente e para purificar a atmosfera mental poluída.

A palavra ‘amor’ é usada para cobrir uma vasta gama de emoções experienciadas pelos seres humanos. Os buddhistas diferenciam entre ‘prema’, o amor egoísta, e ‘karuna’ ou ‘metta’, que significam o amor puramente altruísta. A ênfase na paixão animal mais inferior de um sexo pelo oposto degradou o conceito de um sentimento de amizade para com outro ser. De acordo com o Buddhismo, há muitos tipos de emoções, todas fazendo parte do termo geral ‘amor’. Primeiramente, há o amor egoísta e o amor sem egoísmo. O amor egoísta surge quando estamos preocupados somente com a satisfação que podemos tirar para nós mesmos, sem qualquer consideração pelas necessidades ou sentimentos do parceiro. O ciúmes é usualmente um sintoma do amor egoísta. O amor altruísta, por outro lado, é sentido quando uma pessoa entrega todo seu ser pelo bem de outro – os pais sentem tal amor por seus filhos. Usualmente os seres humanos sentem uma mistura de ambos, do amor egoísta e do amor altruísta, nos seus relacionamentos com os outros. Por exemplo, enquanto os pais fazem um enorme sacrifício pelos seus filhos, eles usualmente esperam algo em troca, de modo que há tanto egoísmo como altruísmo.

Um outro tipo de amor, mas muito ligado com o de cima, é o amor fraternal ou entre amigos, o que chamamos de ‘maitri’ ou mitra. Num sentido, esse tipo de amor pode também ser considerado egoísta, pois o amor é limitado a pessoas em particular e não abrange outros. Em outra categoria temos o amor sexual, onde parceiros se unem devido à atração física. É o tipo mais explorado pelo entretenimento moderno e pode cobrir tudo, desde as paixões sem complicações dos adolescentes até os relacionamentos mais complexos que possam existir entre adultos.

Em uma escala muito mais alta que essa está o amor universal, também chamado de Metta. Esse amor que tudo abarca dirigido a todos os seres sencientes é a grande virtude expressa pelo Buddha. O Senhor Buddha, por exemplo, renunciou a Seu reino, família e prazeres de modo a poder se esforçar para encontrar um caminho para libertar a humanidade de uma existência de sofrimento. De modo a obter Sua Iluminação, Ele teve que se esforçar por incontáveis vidas. Um ser menor teria desanimado, mas não o eleito para ser um Buddha. É por isso que foi chamado de ‘O Compassivo’. O amor sem limites do Buddha se estendeu não apenas aos seres humanos, mas a todas as criaturas vivas. Não era emocional ou egoísta, mas um amor sem fronteiras, sem discriminação. Diferente dos outros tipos de amor, o amor universal nunca termina em desapontamento ou frustração porque não espera recompensa e nem mesmo identifica quem ama. Ele cria mais felicidade e satisfação. Aqueles que cultivam o amor universal também cultivarão a alegria apreciativa e a equanimidade, e então atingirão o estado sublime.

Em seu livro “The Buddha´s Ancient Path”, o Venerável Piyadassi disse:

O amor é uma força ativa. Cada ato de amor daquele ama é feito com a mente imaculada voltada para ajudar, socorrer, alegrar, tornar o caminho dos outros mais fácil, suave e adaptável à conquista do pesar, à vitória da mais alta benção’.

A maneira de se desenvolver o amor é pensando nos males do ódio e nas vantagens do não-ódio; pensando de acordo com a realidade, de acordo com o karma, de que na verdade não há ninguém a odiar, que o ódio é um modo tolo do sentimento que gera mais e mais escuridão, que obstrui a compreensão correta. O ódio restringe; o amor libera. O ódio estrangula; o amor permite. O ódio traz remorso; o amor traz a paz. O ódio agita; o amor aquieta, torna sereno, acalma. O ódio divide; o amor une. O ódio endurece; o amor amacia. O ódio impede; a amor ajuda. E, assim, através do estudo correto e da apreciação dos efeitos do ódio e dos benefícios do amor, alguém deveria desenvolver o amor’.

No Metta Sutta, o Buddha expôs a natureza do amor no Buddhismo. ‘Como uma mãe protegeria seu único filho mesmo com o risco de sua própria vida, da mesma forma, que ele cultive um coração sem limites em relação a todos os seres. Que seus pensamentos de amor sem limites abracem todo o mundo, acima, abaixo e pelos lados sem qualquer obstrução, sem nenhum ódio, sem nenhuma inimizade’.

Se nossos inimigos apontarem nossos enganos e fraquezas, devemos ser gratos a eles.

Realizamos a caridade de fato se pudermos dar livremente sem esperar nada em troca a fim de reduzir nossos desejos egoístas.

A essência da verdadeira caridade é dar algo sem esperar nada em troca pela doação. Se a pessoa espera algum benefício material do que doa, ele ou ela está somente executando uma ação de troca e não de caridade. Uma pessoa caridosa não deve fazer com que outras pessoas sintam-se devedoras ou usar a caridade como um meio de exercitar controle sobre elas. Não se deveria nem mesmo esperar que os outros sejam gratos, pois a maioria das pessoas é esquecida e não necessariamente ingrata. O ato de verdadeira caridade é saudável, não está preso a condições e o recebedor está livre de obrigações.

A ação meritória da caridade é muito louvada em todas as religiões. Aqueles que têm o suficiente para se manterem deveriam pensar nos outros e estender sua generosidade para as causas merecedoras. Entre as pessoas que praticam a caridade, há algumas que dão como um meio de atrair outras pessoas para sua religião ou política. Tal ato de doação, que é realizado com um motivo escondido de conversão, não pode ser realmente considerado uma verdadeira caridade.

Aqueles que estão no caminho do crescimento espiritual devem tentar reduzir seu próprio egoísmo e o forte desejo de adquirir mais e mais. Deveriam reduzir seus fortes apegos a possessões, as quais se não estiverem atentos, poderão escravizá-los à ganância. O que possuem ou têm deveria ser usado, ao invés disso, para o benefício e felicidade dos outros: seus entes queridos, bem como aqueles que precisam de ajuda.

Quando doando, não deveriam fazer a caridade como um ato somente de seu corpo, mas devem colocar também seu coração e mente. Deve haver alegria em todo ato de dar. Uma distinção pode ser feita entre dar como um ato normal de generosidade e dana. No ato normal de generosidade damos por compaixão e amabilidade quando percebemos que alguém precisa de ajuda, e que estamos numa posição de oferecer tal ajuda. Quando fazemos dana, damos como um meio de cultivar a caridade como uma virtude e para reduzir o egoísmo e a ânsia. Ainda mais importante, dana é realizada com entendimento, significando que alguém dá a fim de reduzir e erradicar a idéia de ‘eu’, que é a causa da cobiça, desejo de aquisição e sofrimento. Cultivamos a sabedoria quando lembramos que dana é uma qualidade muito importante a ser praticada por todo buddhista, e é a primeira perfeição (paramita) praticada pelo Buddha em muito de Seus nascimentos anteriores antes de Sua Iluminação. Uma pessoa também executa dana como apreciação das grandes qualidades e virtudes da Tríplice Gema.

Há muitas coisas que podemos dar. Podemos dar coisas materiais: alimento para o faminto, e dinheiro e roupas para o pobre. Podemos também dar nosso conhecimento, habilidade, tempo, energia ou esforço em projetos que podem beneficiar os outros. Podemos oferecer um ouvido amigável e um bom conselho para um amigo em dificuldade. Podemos evitar matar outros seres, e assim fazendo damos um presente de vida para os seres sem proteção que de outra forma seriam mortos. Também podemos dar uma parte de nosso corpo para a ajuda de outro, como na doação de sangue, olhos, rins, coração, etc. Alguns que buscam praticar essa virtude ou são movidos por uma grande compaixão ou cuidado pelos outros podem também se preparar para sacrificarem suas próprias vidas. Em Seus nascimentos anteriores, o Bodhisatta deu muitas vezes partes de Seu corpo em benefício de outros. Ele também sacrificou Sua vida para os outros e a fim de restaurar as vidas de outros, tão grande era Sua generosidade e compaixão.

Mas o maior testemunho da grande compaixão do Buddha é Seu presente sem preço à humanidade – o Dhamma que pode libertar todos os seres do sofrimento. Para o buddhista, a maior doação de todas é o presente do Dhamma. Esse presente tem grandes poderes de transformar uma vida. Quando as pessoas recebem o Dhamma com uma mente pura e praticam a Verdade com sinceridade, elas não deixarão de se transformar. Experimentarão uma maior felicidade, paz e alegria em seus corações e mentes. Se antes eram cruéis, se tornarão compassivas. Se antes eram vingativas, se tornarão pessoas que sabem perdoar. Por meio do Dhamma, quem odeia se tornará mais compassivo, o cobiçoso mais generoso, e o agitado mais sereno. Quando uma pessoa provou o Dhamma, não apenas irá experienciar a felicidade aqui e agora, mas também nas vidas que se seguirão.

Do ponto de vista buddhista, a doação de órgãos após a morte, para o propósito de restaurar a vida de outro ser humano, claramente constitui um ato de caridade – o que forma a base ou fundação de um modo de vida espiritual ou religioso.

Dana é um termo pali no Buddhismo que significa caridade ou generosidade. A perfeição dessa virtude consiste em praticá-la de três formas, a saber:

1. Doar ou compartilhar de coisas materiais ou posses mundanas;
2. Oferecer os próprios órgãos do corpo;
3. Oferecer os próprios serviços para uma causa merecedora a fim de salvar a vida, mesmo com o risco de sacrificar a própria, com a finalidade do bem-estar e felicidade de outros em necessidade.

É por meio de atos de caridade que alguém é capaz de reduzir da mente os próprios motivos egoístas e começar a desenvolver e cultivar as grandes virtudes de bondade amorosa, compaixão e sabedoria.

O ensinamento do Buddha tem como propósito a redução do sofrimento aqui e agora, e pavimentar o caminho para a completa cessação de todas as formas de sofrimento.

O medo em participar de um ato nobre tal como a doação de órgãos jaz primariamente numa falta de entendimento da real natureza da existência.

Há algumas pessoas que acreditam que quando qualquer parte de seu corpo é removida, elas partirão sem aquele órgão para sua próxima vida ou não serão eleitas para entrar no reino do céu. Não há base racional para tais idéias.

Do ponto de vista buddhista a morte se dá quando a consciência deixa o corpo material que se desintegra. E é tal consciência de religação que determina a próxima vida. Algumas pessoas religiosas podem chamar essa consciência de religação de “alma”, enquanto outras podem chamar de “espírito” ou “energia mental”. Seja qual for o termo em uso, é claro que isso nada tem a ver com os componentes materiais do corpo, os quais por sua vez retornam para suas respectivas fontes de energia. O elemento terra retorna para o solo; o elemento água retorna para os rios; e os elementos calor e ar retornam para a atmosfera. Não importando quão bem o corpo seja preservado, seja num caixão de metal ou madeira, a decomposição do corpo é inevitável. É somente a consciência que vai para um novo renascimento.

Ao invés de permitir o órgão apodrecer e ser desperdiçado, a tecnologia e os métodos cirúrgicos atuais capacitaram que estruturas desses componentes, tais como o coração e outros órgãos, sejam usadas ou transplantadas para restaurar a vida.

Com o número crescente de falhas de órgãos ocorrendo no país, o tempo é chegado para que nossos membros públicos mais esclarecidos se levantem e sejam voluntários para a doação de órgãos após a sua morte em nome de uma causa justa.

É o dever de todas as pessoas conscientes se juntar nessa nobre causa de ajudar a aliviar a humanidade sofredora. Algum tempo atrás havia um decalque de carro que dizia: “Deixe seus órgãos para trás, Deus sabe que precisamos deles aqui”.

Se acreditamos que os animais foram criados por alguém para o benefício do homem, segue-se daí que os homens também foram criados para os animais, uma vez que alguns animais de fato comem carne humana como parte de sua natureza.

É dito que os animais são conscientes apenas do presente. Vivem sem preocupação pelo passado ou futuro. São como crianças que parecem não ter noção do futuro. Vivem também no presente até suas faculdades de memória e imaginação se desenvolverem. Autoconsciência é uma faculdade que vem com a maturidade.
Seres humanos possuem a faculdade do raciocínio. A distância entre o ser humano e animal aumenta apenas na medida em que desenvolvemos nossa faculdade de raciocínio e agimos de acordo. Os buddhistas aceitam que os animais não apenas possuem o poder do instinto, mas também, num nível menor, o poder do pensamento. Mas eles podem utilizar seu instinto desde o nascimento apenas para encontrar comida, abrigo, proteção e prazer sensual.

Em alguns aspectos, os animais são superiores aos seres humanos. Os cães têm um senso mais apurado de audição e olfação; os insetos têm um senso mais apurado de olfação; os falcões são mais velozes; as águias podem ver a uma distância maior. Indubitavelmente, somos mais sábios; mas temos tanto a aprender das formigas e das abelhas. Muito do animal ainda está em nós. Mas também temos muito mais: temos o potencial para o desenvolvimento espiritual.

O Buddhismo não pode aceitar que os animais foram criados por alguém para beneficiar os seres humanos; se os animais foram criados para eles então, segue-se daí, que os seres humanos também foram criados para os animais, uma vez que alguns animais comem carne humana pois é sua natureza comer a carne de seres vivos.

Os buddhistas são encorajados a amar todos os seres vivos e a não restringir o seu cuidado somente para o benefício dos seres humanos. Deveriam praticar a bondade amorosa em relação a todos os seres vivos. O conselho do Buddha é de que não é certo para nós tirarmos a vida de qualquer ser vivo uma vez que todo ser vivo tem um direito de existir. Os animais também têm medo e dor, da mesma forma como os seres humanos. É errado tirar suas vidas, machucá-los ou instigá-los ao medo. Não deveríamos fazer um mau uso de nossa inteligência e força para destruir animais, mesmo que, por vezes, possam ser percebidos como uma perturbação para nós. Os animais precisam de nossa simpatia. Destruí-los não é o único meio de nos livrarmos deles. Cada ser vivo contribui com algo para manter este mundo. Não é justo tirar seus direitos à vida.

Em seu Manual da Razão, D. Runes diz:

Dificilmente podemos falar de moral em relação às criaturas que sistematicamente devoramos, na maior parte das vezes assadas, mas algumas vezes cruas. Há alguns homens e mulheres que dedicam o amor aos cavalos, aos cães, aos gatos, aos pássaros. Mas essas mesmas pessoas podem pegar um veado ou um bezerro pelo pescoço, cortar sua garganta, beber seu sangue, diretamente ou em um pudim, e morder a carne. E quem pode dizer que o cavalo de que tanto gostam é mais nobre do que o veado que comem? De fato, há pessoas que comem gatos, cães e cavalos, mas usam uma vaca somente como um animal de trabalho e cães para protegê-las e à sua propriedade”.

Alguns choram por um passarinho ou um peixinho dourado que morreu; outros viajam longas distâncias para pescar um peixe num terrível anzol a fim de comer, mero prazer ou caçar passarinhos para se divertir. Alguns penetram profundamente numa floresta e viajam a outros países para caçar animais como num jogo, enquanto outros gastam muito a fim de manter os mesmos animais em casa como seus bichos de estimação.

Alguns guardam sapos para predizerem o clima; outros cortam suas pernas para fritá-las. Alguns ternamente mantêm pássaros em gaiolas douradas; outros as servem no café da manhã. Tudo é muito confuso.

Toda religião nos aconselha a amarmos nossos companheiros humanos. Algumas até nos ensinam a amá-los mais se pertencerem à mesma religião. Mas o Buddhismo é supremo em nos ensinar a mostrar igual cuidado e compaixão por toda criatura no universo. A destruição de qualquer criatura representa uma perturbação na Ordem Universal.

O Buddha foi muito claro em Seus ensinamentos contra qualquer forma de crueldade a qualquer ser vivo. Um dia, o Buddha viu um homem preparando-se para fazer um sacrifício animal. Sendo perguntado porque iria matar animais inocentes, o homem respondeu que era para agradar aos deuses. O Buddha, então, Se ofereceu para ser sacrificado dizendo que se a vida de um animal agradaria aos deuses então a vida de um ser humano, sendo mais valiosa, agradaria ainda mais.

A crueldade do homem em relação aos animais é uma outra expressão de sua ganância incontrolável. Hoje destruímos os animais e os privamos de seus direitos naturais para nossa conveniência. Mas já estamos começando a pagar o preço por esse ato egoísta e cruel. Nosso meio ambiente está ameaçado e se não tomarmos medidas severas para a sobrevivência de outras criaturas, nossa própria existência na terra pode não estar garantida.

É verdade que a existência de certas criaturas é uma ameaça para a existência humana. Mas nunca refletimos que os seres humanos são a maior ameaça para todo ser vivo na terra, na água e no ar, enquanto que a existência de outras criaturas é uma ameaça somente para certos seres vivos e, mesmo assim, não apresentam uma ameaça para sua extinção, pois matam apenas para sobreviver, nunca por prazer ou ganância incontrolada.

Uma vez que cada criatura contribui com algo para a manutenção do planeta e da atmosfera, destruí-las não é a solução para superar nossos problemas e necessidades. Deveríamos tomar outras medidas para manter o equilíbrio da natureza.

“Se uma pessoa tolamente me faz um mal, eu devolverei a ela a proteção de meu amor ilimitado. Quanto maior o mal que venha dela mais boa vontade virá de mim. Sempre emanarei somente a flagrância da bondade” (Buddha)

As pessoas hoje são agitadas, exauridas, preenchidas com o medo e o descontentamento. Elas estão intoxicadas de desejo em adquirir fama, riqueza e poder. Anseiam por gratificação dos sentidos. Elas passam seus dias em medo, suspeita e insegurança. Nesse tempo de turbulência e crise, torna-se difícil para as pessoas coexistirem pacificamente com os outros seres. Há, portanto, uma grande necessidade de tolerância e compreensão no mundo de forma que uma coexistência pacífica entre as pessoas do mundo seja possível.

O mundo tem sangrado e sofrido com a doença do dogmatismo e da intolerância. O solo de muitos países de hoje está ensopado de sangue derramado no altar de várias lutas políticas, da mesma forma que os céus do milênio anterior estavam cobertos com a fumaça dos mártires de várias fé que eram queimados. Seja na religião como na política, as pessoas estão determinadas em uma missão de conquista de poder e agressividade em relação a outras formas de viver a vida. De fato, a intolerância do espírito das cruzadas manchou os anais das religiões.

Olhemos para o século passado com seu grandemente propagado ‘Progresso’ – um século de aparelhos e invenções. A gama de novas invenções científicas e técnicas é impressionante – telefones, motores elétricos, aviões, rádios, televisão, computadores, naves espaciais, satélites e aparatos eletrônicos. Ainda assim, nesse mesmo século vemos que as crianças da terra que desenvolveram todas essas invenções como prova última do progresso, foram as mesmas pessoas que assassinaram milhões de outras com suas baionetas, balas e bombas. Em meio a todo esse grande ‘progresso’, onde está o espírito de tolerância? Onde está o amor do qual muitas religiões falam?

As pessoas hoje estão interessadas em explorar o espaço. Mas são totalmente incapazes de viver na terra como vizinhos em paz e harmonia. O medo de que os humanos irão mais cedo ou mais tarde profanar a lua e outros planetas é hoje bem real.

Por causa do ganho material, a modernidade viola a natureza. As atividades mentais das pessoas estão tão preocupadas em satisfazer seus prazeres que são incapazes de focar ou mesmo entender o propósito da vida. Esse comportamento não natural dos seres humanos atuais é o resultado de sua concepção errônea da vida humana e de seu objetivo último. Criamos mais frustração, medo, insegurança, intolerância e violência.

De fato, a intolerância hoje é ainda praticada em nome da religião. Pessoas meramente falam de religião e prometem prover atalhos para o paraíso, mas não estão interessadas em praticá-la. Se os cristãos viverem pelo Sermão da Montanha, se os buddhistas seguirem o Nobre Caminho Óctuplo, se os muçulmanos realmente seguirem o conceito de Irmandade e se os hindus moldarem suas vidas em unidade, definitivamente haverá paz e harmonia neste mundo. Apesar dos inestimáveis Ensinamentos dos grandes mestres religiosos, as pessoas ainda não compreenderam o valor da tolerância. A intolerância que é praticada em nome da religião é a mais desonrada e deplorável.

O conselho do Buddha é: ‘Vivamos felizes, não odiando aqueles que nos odeiam. Em meio aos que nos odeiam, vivamos livres do ódio. Vivamos felizes e livres da doença. Vivamos felizes e livres da ganância, em meio àqueles que são gananciosos’ (Dhammapada 197, 200).

Práticas funerárias buddhistas apropriadas são serviços religiosos simples, solenes e dignos

Tal como praticado em muitos países buddhistas, um funeral buddhista é simples, solene e digno. Infelizmente, algumas pessoas incluíram muitos itens desnecessários e estrangeiros e práticas supersticiosas nos ritos fúnebres. Os itens e práticas estrangeiros variam de acordo com as tradições e costumes do povo. Os rituais foram introduzidos no passado por pessoas que não podiam entender a natureza da vida, a natureza da morte e o que seria da vida após a morte. Quando tais idéias foram incorporadas como práticas ‘buddhistas’, os críticos começaram a condenar o Buddhismo por causa de seus ritos funerários caros e sem sentido. Se tivessem se aproximado de pessoas certas que tivessem estudado os Ensinamentos reais do Buddha e da tradição buddhista, teriam recebido ensinamentos sobre como executar os ritos fúnebres buddhistas de forma correta. É uma pena que uma má impressão foi criada de que os buddhistas encorajam as pessoas a gastarem dinheiro e tempo em ritos e rituais desnecessários. Deve ser claramente compreendido que o Buddhismo não tem nada a ver com tais práticas adulteradas.

Os buddhistas não focam particularmente se o corpo será enterrado ou cremado. Em muitos países buddhistas, a cremação é o costume. Por razões higiênicas e econômicas é aconselhável cremar. Hoje, a população no mundo está aumentando e se continuamos a ter cadáveres ocupando terra valiosa, então um dia toda a terra disponível restante será ocupada pelos mortos e os vivos não terão lugar para viver.

Há ainda algumas pessoas que se opõem à cremação dos cadáveres. Elas dizem que a cremação é contra a lei de Deus, da mesma forma que se opuseram a muitas outras coisas no passado. Levará algum tempo para que elas compreendam que a cremação é muito mais apropriada e efetiva do que um enterro.

Além disso, os buddhistas não acreditam que alguém virá um dia e acordará os espíritos das pessoas mortas ou dará vida às cinzas depositadas numa urna, decidindo quem deverá ir para o céu e quem deverá ir para o inferno.

A consciência ou a energia mental da pessoa morta não tem conexão com o corpo deixado para trás, com seu esqueleto ou suas cinzas. Um corpo morto é simplesmente uma casa vazia, velha e apodrecida que a vida da pessoa falecida ocupava. O Buddha o chamava de ‘tronco inútil’. Muitas pessoas acreditam que se o morto não tiver um funeral apropriado ou se uma lápide santificada não for colocada sobre a sepultura, então a alma do morto irá vagar pelos quatro cantos do mundo, chorando e gemendo, e algumas vezes até mesmo retornando para perturbar os parentes. Tal crença não pode ser encontrada em nenhuma parte no Buddhismo.

Algumas pessoas acreditam que se o corpo morto ou as cinzas da pessoa morta forem enterrados ou guardados num lugar em particular através do gasto de uma grande soma de dinheiro, a pessoa falecida será beneficiada.

Se realmente quisermos honrar uma pessoa que morreu, deveríamos fazer algumas ações meritórias, como fazer doações para causas merecedoras e atividades de caridade ou religião, em memória dos que partiram, e não através da realização de rituais e ritos caros.

Os buddhistas acreditam que quando uma pessoa morre, o renascimento acontecerá em algum lugar de acordo com suas boas ou más ações. Tanto quanto uma pessoa possua a ânsia pela existência, ela experienciará o renascimento. Somente os Arahants, que ultrapassaram todas as paixões, não terão mais renascimentos e assim, após a morte, atingirão seu objetivo final, o Nibbana.

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