Prefácio da Edição Brasileira

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“Quando visitei a Malásia em 1999, tive a oportunidade de conhecer e conviver alguns dias com o venerável K. Sri Dhammananda em seu templo, o Buddhist Maha Vihara de Kuala Lumpur. O belo templo no estilo do Sri Lanka, seu país natal, é sustentado pela comunidade cingalesa e pela grande comunidade chinesa e, na época, era palco da reunião anual de jovens buddhistas. O trabalho com as crianças e jovens foi uma de suas bem sucedidas iniciativas, e como era bom ver jovens buddhistas de 8 a 20 anos se divertindo juntos (karaokes, teatro, brincadeiras) ao mesmo tempo em que estudando o Dhamma através de palestras, discussões e atividades criativas. Venerável K. Sri Dhammananda não incentivava nada particularmente Theravada ou Mahayana; seu era um buddhismo universal, que tocava jovens e velhos, chineses, malaios e cingaleses. Ele levantava três dedos para cima e dizia que representavam os três ‘P’s: pariyatti (o aprendizado do Dhamma), patipatti (sua prática) e pativedha (penetrá-lo e realizar seu objetivo). ‘Se pudermos todos fazer essas três coisas, então não precisaremos ser conhecidos como Theravada, Mahayana ou Vajrayana. Todos esses ‘yanas’ são feitos pelo homem. O Dharma da não linguagem, no final das contas, é entendido por todos os seres, não importando as escolas e tradições’.

K. Sri Dhammananda foi um dos mais importantes monges buddhistas atuando no extremo do sudeste asiático. É difícil descrever o impacto e significado do Ven. Dhammananda na vida buddhista da Malásia e Cingapura. Respeitado igualmente pelas comunidades Theravada, Mahayana e civil, o “Chefe”, como era conhecido, efetivamente dominou o cenário buddhista das últimas décadas. Suas obras educacionais, sociais, comunitárias, literárias, fizeram de K. Sri Dhammananda um ícone do Buddhismo da Malásia, país que escolheu para viver.

Nascido no Sri Lanka em 18 de março de 1919, aos 12 foi ordenado como noviço, recebendo o nome de Dhammananda (“Bênção do Dhamma”). Diplomou-se no Vidyalankara Pirivena College de Colombo, aos 26 anos, em pali, sânskrito, filosofia buddhista e cânon pali, e mestrado em filosofia buddhista na Benares Hindu University.

K. Sri Dhammananda chegou no Buddhist Vihara em Brickfields, Kuala Lumpur (capital da Malásia), em 1952, e 10 anos depois fundou a Buddhist Missionary Society (BMS). Escreveu cerca de 70 livros, os quais foram traduzidos em mais de 17 línguas. Temos o grande deleite de ver agora sua mais famoso livro também na língua portuguesa. Em 1965, o Ven. K. Sri Dhammananda foi indicado como Chefe Supremo da Sangha da Malásia e Cingapura.

Enquanto o encontro dos jovens se dava (o que durava uma semana no período das férias escolares), o “Chefe” já se encontrava doente. Num dos dias de minha estadia, ele foi levado ao hospital. Passei cerca de uma hora em seu quarto de hospital, juntamente com outros monges e discípulos laicos, entre conversas sobre o Dhamma, risadas e veladas preocupações por sua saúde. Por que era conhecido como “o Chefe”? Todas as escolas buddhistas o respeitavam e o consideravam sob sua influência e proteção. Seu porte avantajado, sua voz poderosa e sorriso sempre presente irradiavam uma serena autoridade que em breve se espalhou por todo o Buddhismo do sudeste asiático, particularmente da Malásia e Cingapura.

Ven. K. Sri Dhammananda morreu em 31 de agosto de 2006. Naquele mesmo dia, decidi oferecer a tradução de um de seus livros mais famosos: No Que Os Buddhistas Acreditam, como tributo a este incansável trabalhador do Dhamma que deve servir de exemplo a todos nós. Exatamente uma semana depois o site estava online e era inaugurado com a primeira entrada. No decorrer desses anos os leitores de língua portuguesa puderam regularmente ler os capítulos do livro colocados pouco a pouco online até finalmente hoje o completarmos. Que por essa tradução e oferta muitos seres se beneficiem!

Ricardo Sasaki
diretor-fundador da
Comunidade Buddhista Nalanda
9 de novembro de 2011

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5 comentários sobre “Prefácio da Edição Brasileira

    Rodrigo Vaz disse:
    9 novembro, 2011 às 6:40 pm

    “O Dharma da não linguagem, no final das contas, é entendido por todos os seres, não importando as escolas e tradições.” Ao Prof. Ricardo Sasaki, nosso muito obrigado pela divulgação deste belo trabalho! Gasshô.

    Marco Monteiro disse:
    13 novembro, 2011 às 10:39 am

    Embora, assumidamente eu faça parte da categoria dos não praticantes, curiosos e afins, há muito que me identifico e me deixo positivamente contaminar pelas idéias budistas. E o interessante é que a ciência e a mídia comum, dia após dia confirmam os benefícios do modo de vida e pensar que os budista sabem e praticam há milênios. Muito bom ter acesso a essa publicação para nos fazer pensar e refletir sobre o nosso cada vez mais acelerado e aliciante mundo, mas que paradoxalmente abre-se também à exploração do antigo que sempre esteve a frente do seu tempo. Parabéns e obrigado!

    angela vescovi disse:
    14 novembro, 2011 às 11:43 am

    Ricardo,

    Fiquei muito emocionada com este prefácio.Acredito ser vários os motivos, mas o principal é aconexão com o Dharma, o fato de Rinponche residir na Malásia e porái vai.
    Sempre penso quando um dos professores “morrem” que a única forma de homenagea-los é colocar seus ensinamentos em prática e dissemina-los da forma autentica como está fazendo. Muito obrigada por esta generosidade e que muitos seres possam se beneficiar!

    Rosana disse:
    1 janeiro, 2012 às 1:09 pm

    Hoje é o primeiro dia do ano de 2012.
    Agradeço imensamente a oportunidade de ter olhos de ler e coração de sentir “No Que Os Buddhistas Acreditam”.
    Muito gratidão ao Professor Sasaki por essa publicação.

    Gasshô
    Rosana.

    Eli Ane disse:
    16 novembro, 2013 às 8:35 am

    Muito grata -^-

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